Zheto Cunha Gonçalves

ortegaPoesía, SO9

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ZETHO CUNHA GONÇSALVES

O CORAÇÃO HUMANO

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O coração humano
não é
como um saco,

onde se pode
meter a mão
— e remexer.

2.9.2013
De Rio sem Margem. Poesia da tradição oral.
Livro III (em preparação).


SOBRE «DESVERSOS» E OUTROS ENCANTAMENTOS,
DE FERNANDO ASSIS PACHECO

O Mendes de Carvalho era um irónico.
O Alexandre O’Neill, umas vezes irónico, outras só publicitário travestido de poeta — ainda que grande. Porém, o Humor, esse foi uma dança que ele nem sempre dominou a passo certo e seguro. Era uma dança um pouco triste e desajeitada, raramente sarcástica.
Você, Assis, mete prego a fundo no safado do Humor, doseia-lhe o trágico e o sublime a preceito e contento de ambas as partes, e é mesmo cáustico: vai ao fundo dos fundos e vira tudo de pantanas: há Alegria e riso feliz, coisas tão ausentes nas nossas Letras. Creio não dizer nenhum disparate: África, com tudo de terrível & feridas & fantasmas tão excelentemente exorcizados na sua Obra sobre a Guerra Colonial — talvez a mais importante de toda a Poesia Portuguesa —, África, dizia, aprimorou-lhe o sentido do Humor — e Você foi exemplar como aluno da matéria.
Amo visceralmente este(s) Humor(es), Assis! — sejam eles Desversos ou Reportagens/ Entrevistas, você é sempre o grande Poeta da gargalhada corrosiva como um corpo transbordante de saúde e de pecado!
Gracias a Fernando Assis Pacheco! 

Setembro de 1991


CARTA BREVE PARA JOÃO CABRAL DE MELO NETO,
NO SEU 99.º ANIVERSÁRIO

Meu muito Caro João,
O facto de sermos homens de rios e de horizontes desvairadamente inabarcáveis — você, do Capibaribe e de Pernambuco; eu, do meu rio Cutato e do Cuando-Cubango — impõe-nos, à força de metáfora — visceralmente conquistada e assinada por todas as células do corpo —, um pacto de sangue, Poema e Vida com as Terras que nos somos e suas gentes — flor de dádiva retribuída, imperecível. Porque nós, João, nós vimos do tempo analfabeto e sábio do cordel e do repente; das canções de ninar, dos cantos rituais da puberdade, da sementeira e da colheita, da caça e da pesca, da celebração e da morte. Nós vimos do tempo em que os Povos eram ainda a vertical, inquebrantável coluna vertebral da humaníssima dignidade: habitavam a Terra numa serena intimidade rejubilante, povoando-a, à sua justa medida, com a voz inaugural da Poesia que criavam para nomear e celebrar os seus achados e alumbramentos, ou esconjurar o pânico, a doença e a morte.
João, quem seríamos nós, amputados da Poesia das oraturas do Mundo? Não ouso sequer imaginar.
Quanto à sua Poesia, chegou-me através da rádio aos matos angolenses da minha infância, em Morte e Vida Severina, pela voz de Chico Buarque, ao tempo um aprendiz de (en)cantador de mundos — com A Banda de permeio.
Quaderna foi o meu primeiro livro seu, de lê-lo em descoberta e maravilha. História trágica, João, a deste livro comigo.
Aconteceu nos últimos dias de Julho de 1975 — quando a guerra civil saiu de Luanda para se estender a todo o território angolano —, na cidade de Malanje, onde a violência dos combates provocou um êxodo massivo. Na precipitação e no pânico da fuga, levando quase só a roupa do corpo, um jovem casal não se apercebeu que seu filho de meses caíra da alcofa à saída da porta de casa. Só 6 h de viagem e 475 km depois se deram conta da ausência do seu tesouro maior.
Eu era um adolescente-soldado, comandante de um exército de adolescentes-soldados na cidade do Huambo, e coube-me acompanhar em escolta e resgate esses pais desesperados em busca do filho. Haviam passado muitas horas, o bebé desidratara, não havia hospital algum a funcionar, e a criança acabou por morrer nos braços da mãe, durante a viagem de regresso ao Huambo.
Entre despojos de saque e de guerra, no meio da rua e dos primeiros escombros de Malanje, dou com o seu Quaderna, que folheei, meti no bolso da farda, e nunca mais abandonei num crescendo de releitura (que é sempre o destino da Poesia digna desse nome) para o restante da sua Obra. E você, João, que não tem um verso bambo, uma vírgula esdrúxula, você, João, você é absolutamente inimitável. E é isso o que mais me fascina e admiro em si: essa voz pessoalíssima e única, irrepetível, sem lugar ao epígono — soberana voz que vem do cordel para uma sábia, dúctil, irradiante ciência de ofício, absolutamente fabulosa, de erotismo e de sensualidade, que transborda de todos os seus poemas.
João, os poemas de Quaderna foram (re)lidos centenas de vezes no intervalo dos bombardeamentos, das emboscadas, dos ataques. Quando o meu corpo esparramado no chão em transe estremecendo por todos os grãos de areia e pó aguardava a passagem das balas, dos obuses, das bazucadas, dos dilagramas, das morteiradas e de toda a parafernália de guerra e de morte; enquanto o meu corpo esparramado no chão em transe estremecendo por todos os grãos de areia e pó cada vez mais ameaçador e fatal aguardava o mágico instante de fuga ou de avanço em combate, eu apontava a voz aos poemas de Quaderna e gritava-os, qual esconjuro, para os meus companheiros de trincheira.
João, nunca perdi um soldado meu em combate, nunca sofri a emergência de um ferido — eu, que tanta Vida salvei! Supersticioso que sou, posso agora dizer-lhe, João, quanto Quaderna nos foi afim e benfazeja, nosso amuleto secreto e prodigiosamente funcional. «Jogos Frutais», um dos poemas eróticos mais assombrosamente belos e perfeitos que já me foi dado ler, com sua desbordante sensualidade, requintadíssima e natural, instigadora, devolvia-nos, inteiro, o rosto adolescente que os ódios da guerra nos queriam marcar de assassinato ou de morte. Mas nada nem ninguém, João, «pode» seja lá o que for «contra o poema» — é esse o segredo, a sombra grande que ilumina o Mundo. É isso a Poesia. Boa noite, João. Eu aqui fico ainda, e sempre, soletrando a magia destes «irmãos das almas» que são os seus versos, os seus poemas: perfeitos, incorruptíveis — e tão humanamente inimitáveis. Boa noite, João.