Vítor Nogueira

ortegaPoesía, SO5

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Homem do Saco
por Luís Henriques, Ricardo Castro,
Luís França e Rui Miguel Ribeiro,
com a participação especial de
Miguel Ferreira

vítor nogueira

Mr. Fog

1

Mr. Fog, poeta-ilusionista,
orientou na Sociedade Literária
um atelier de escrita criativa,
apresentando abordagens magníficas
baseadas em técnicas de sugestão mental,
transmissão de pensamentos
e vários tipos de prestidigitação.

Mr. Fog também se propunha comer
um escritor vivo, como fizera anunciar
no programa que espalhara. Porém,
a esta sorte nenhum dos assistentes
se prestou, sinal de que, ao contrário
do que às vezes se diz sobre os poetas,
todos eles tinham certo amor à vida.

2

Ah, esses enfatuados que a literatura
esfacelam em abordagens de asno.
Mr. Fog não tolera, porque não pode,
que venha gente dessa impingir poemas
arrancados a dicionários de sinónimos
salpicados de vocabulário sujo
e pouco próprio, mesmo em folhetos
de leitura reservada. Muito menos
pode admitir que despejem à sua frente
fantásticas estrofes de contemporaneidade
duvidosa, apanhadas em leituras
nem sempre compreendidas. Mr. Fog,
é evidente, não espera ver poetas consumados
onde só pode haver amadores conscienciosos.
Exige-lhes porém algum decoro.

3

A poesia jamais deve perder a linha austera
da sua linguagem correctíssima. Quer dizer,
mostrar-se na sua ingenuidade seria abrir-se
aos olhos desbragados que de longe a espreitam.

A Mr. Fog, seu intérprete fiel, nunca ela
consentiu que lhe deslaçasse a liga ou desapertasse
a blusa. Porque a poesia sabe impor distâncias
nas suas confidências amistosas. De resto,

se a cara é o espelho da alma, com mais verdade
se pode decifrar, sem risco de incorrer em equívocos,
o verdadeiro carácter de quem escreve uma linha,
uma palavra que seja sobre um naco de papel.

4

Por outras palavras, embora conhecido seja
o manifesto agrado de muitos poetas
pela má-língua, Mr. Fog chama a atenção
para o fastio que as imagens rebarbativas
expressas em sucessivos versos produzem
no espírito do leitor. E que isto não fosse —

por sobre tudo há que respeitar a levantada missão
da poesia. Fazer reverberar acusações
a factos dignos de censura não é vir a lume
com versos ordinários e palavras de calão.
O poema, antes de ser pelourinho infamante,
é evangelho ilustrador e manual de polidez.

5

Por outras palavras ainda, Mr. Fog,
poeta-ilusionista, propunha-se mesmo
comer um escritor vivo.