DOROTHEA VON ELBE
Sin título, 2016
ROSA OLIVEIRA
natureza quase viva
a fina risca cada vez mais azul
do dia a nascer
o horizonte à frente
sempre à frente
o interior do bar
anos de cheiro acumulado
de acres espirais de fumo
a grande nogueira tremia açoitada
retalhada até ao osso
sim vai e diz
um pedaço de mim
a metade amputada de mim
leva o teu olhar
dizia a canção
um pedaço de lua desprendeu-se
caiu num anfiteatro africano
diz o documentário
ou a wikipédia
a melhor maneira de encontrar um meteorito
é escutando
um meteorito zumbe ao passar
arrasa quem se mete no caminho
um bocejo
uma pessoa
uma língua
uma nação
um shot de beta-endomorfina
um clarão
passagem de ano
duas horas à frente
uma hora atrás
um pé no escuro
que pena não saber polaco
ou russo
ou português camoniano
para ler nas línguas originais
como uma pedante da tradução
a todo o vapor de
água faz favor
maduro
maio voa arrancado da parede
longos anos em que a poesia
teimava
impossível de entender
nada de mistérios e sussurros
no intestino
uma simples parede opaca
muda
como é próprio das paredes
e então lembrei-me
dos brócolos
a ferver há mais de quatro minutos
desculpem
vou pra dentro
mês sete
o verão com todas as suas garras
entra pelas janelas
instala-se nas casas
senta-se em todos os sofás
estira-se
come à nossa mesa
por vezes estremece
fecha os olhos
sorve o palmilhar árido
pousa a cabeça
a mão pensativando
no cotovelo
olha o infinito
o verão é uma mulher
a caminhar na areia
os pés na água turva
essa dificuldade em soletrar
tu não estás aqui
(poema cheio de fé)
o modo abrupto como irrompemos casas adentro
estorvando senhoras de cabelo quase celeste
com um falar doce
sibilante explicante
do todo a funcionar em harmonia
o modo como expeditas donas de casa
abrem a correspondência diante
dos nossos olhos tímidos de interruptores
o dia partido ao meio pelo sol
a brandura das palavras de um idoso
nobre no seu português bem soletrado
agasalhado no sobretudo gramatical impoluto