Miguel-Manso

ortegaPoesía, SO5

Image

Homem do Saco
por Luís Henriques, Ricardo Castro,
Luís França e Rui Miguel Ribeiro,
com a participação especial de
Miguel Ferreira

miguel-manso

FOLHA DE SALA PARA SARGY MANN

numerosa a luz que faz no lugar
do pintor cego
emboca pela janela do tacto empurrada pelo vento
sinuosa branca
e com as mãos o pintor modela-a compõe
aquilo

que não viu
e no entanto as mãos percorrem as alturas
todas
aqui uns joelhos as ancas mais ali
a cabeça de um corpo adentrado na memória
a lembrança do mar
ao fundo da varanda

a mulher guia-o pelos corredores do vento
ele guia a mulher pela certeza
escura de alguma evidência ou pelo isento
luzeiro que um ser pode

fecharam os reflexos aparentes
para um e para outro o clarão tornou coisa que atravessa
a retina do coração

a cor enrubesce numa acção decorada
no escuro

o que ontem foi manifesto hoje cai no principal
ao dizer azul
as células do azul encharcam a superfície do lago
o pintor vê aquém da recordação
e para lá do nutriente basilar da cor azul

cosida que está ao seu código
sensorial
o pintor reconhece a visão depurada do azul
a estrutura do azul

a paixão do visto cariou
uma ideia de visão se mistura e desfaz
no fluido do olhar-se

o pintor verte o que a visão não creu
expõe as variáveis brancuras da cegueira e do assombro
o corpo que já viu come desse comércio
mas ao corpo que cegou preenchem-no o oco
de outras formas

quem vir por fora estas pinturas é cego de as não
ver onde perduram:

diante do que em si é através

O SOL DO MAR MELEIRO

trabalho amor morte

e as tantas coisas do mundo sujo
por certo
há um deus diluído na vida do homem
para cá do lucro quotidiano

parte de nós parte-se
outra parte prossegue vai cumprir
cor por cor o seu milagre

um lavatório fulvo a pequena água
do sonho
uma rua deserta caindo no fogo
o medo torcido a idade

o autocarro cavalga até ao topo intraduzível
da manhã
a guerra explode a cada Julho
não importa onde se oculta o fragmento mais
firme do mistério

é um ofício
despertar dentro de um quarto sumido há muito
sentar-se à mesa
alimentar-se de uma memória dolorosa
manter-se puro

porque o olhar deve
poisar num lugar claro aí onde a divindade
ejacula

por isso não temo a releitura
a emboscada
o motor abstracto a substância do mundo
o ânus

esse espelho dúctil onde entrevemos começo
e fim

SATURNO DEVORANDO UM FILHO

todas as vezes único e irrepetível é
este agora
como uma brisa agita as fitinhas da impermanência
postas entre os dois lados
do vazio

bala de luz que acerta na
cabeça da escuridão fura a neblina vai
embutir na fresta da manhã

um vazio sobra de outro vazio
oco a oco
engrossa torna uma coisa dura:
esta letra

fio de tempo puxado de um novelo
embaraçado

o abutre da matéria paira
na clareira onde abutre e sobrevoo
se originam sobrepostos

é difícil
a placenta onde incuba o que somos
unido com o que não

um corpo germina ferido de pintura
apodrece
na maravilha

e quando o estoiro do clarão tange
como trovejo na infância
como desgrenho na casa dos assombros
como mênstruo

um jorro de partículas transpõe as persianas
toca o sono dos que ficam
alvora no sossego dos que vão

a mãe fundamental
recebe esse destroço sujo da substância
terrena

e queimando as imagens, alimentando as imagens
nutre-o de um outro leite

COZINHA DA CASA DE MANHUFE

para O País da Mesa

as criadas trouxeram as maçãs
pousaram-nas nos olhos da criança e sobre a lousa
excitaram o fogo debaixo da manhã
húmida
canora

para lá do nevoeiro um cavalo sua
rompe o orvalho
pisa a lama as ervas brancas
e as criadas compõem a sopa arranjam as lebres
alojam frutos dentro da masseira

as lâminas cortam em fatias a pedra o barro
dos vasos rebenta de flores maçadas
vozes gincanam entre os arcos
tudo se move em volta pedindo a ingestão
fremente

enquanto o dia não ateia sobre a torre
o gelo estaca no vidro da janela o galgo deita-se
sobre o monte de trapos sujos num gemido granítico
no cansaço ancião de quem já correu
tamanhas buscas

e a criança olha para tudo e vê
que a saia da criada roda entre tachos e púcaros
prende na esquina da bancada
amachuca no rompante de um par de mãos tingidas
enodoa de untos e açafrões

as velhas embocam e abalam lentas
os seus olhos decrescem sobre os conteúdos
com a voz buscam poderes dispersos
são só surdina e ar

e os aromas ornamentam cada dimensão
cada forma:
o pão arrefecendo no tabuleiro as drogas cheirosas
suspensas na trave dos fumos
o alho a estalar na chapa do fogão
e o sangue vencido das lebres as suas peles rociadas
ainda luzentes

atiradas como trapos para o monturo
da morte

PIQUENOS ÓLEOS DE CAPRI

para o Luis Manuel Gaspar

se é para ir cedo desta vida
então que primeiro se visite Capri
armado de tintas e intentos

as casas brancas arrumadas entre cactos
os caminhos amarelos
empoeirados
onde nada nem ninguém
o azul do mar cosido a umas nuvens
a uns arbustos

tudo plasmou com o zelo diarista
do pintor

madeiras empacotadas despachadas de Nápoles
como promessa
como vinhetas onde a luz recresce
lenço
enrugado manchado de sangue tossido: clarão
para futuros mostruários

eis Henrique Pousão morto aos vinte
e cinco
vítima do trabalho da beleza e de problemas
na árvore respiratória

tornou a Portugal para morrer
sem ter gozado o todo da pensão do Estado
como aluno no estrangeiro
(classe: Pintura de Paisagem)

recebeu-o o pai
e a Academia de que não teve tempo
de escapar

e no comboio em que veio as paisagens
que não pintou doeram-lhe tanto como as pintadas
a todas carpiu gorou

no fim
entre as ruelas apertadas as barreiras
pétreas
os telhados rotos os tranquilos sobrados
de Capri

no meio das figurinhas maltrapilhas postas
na frescura dos muros sobre
tufos de erva nova
das escadinhas subindo para enigmáticos
portões

ficou uma imagem só: a da ‘janela das persianas
azuis’

onde uma fiada de roupa branca ainda hoje
enxuga ao Sol