Antonio Salvado

ortegaPoesía, SO6

ANTONIO SALVADO

POEMAS

EFÉMErO

E quando menos penso        eis que floresce
o acaso imprevisto: como folha
caída mas em plena primavera
ou como em mero outono um novo broto.
Surgiste: em tua boca um riso aberto
(que musical o som daquela boca!)
e os meneios vibrantes do teu corpo
ora bem longe       ora de mim mais perto.
Talvez por ser manhã tudo vibrava
de suave ternura       pelo ar,
e ouviam-se no ar aves passando…
Mas não pude alongar essa alegria
de um gozo tal       sentido por surgires:
uma presença igual a leve instante.

iLUsÃO

Fugazmente       gozando o ócio       as nuvens
persistem por ali
e deixam reflectir-se
do lago floreal       na superfície
em singular sussurro.

E fingem que não sabem de mudanças,
dos tempos e dos modos de fluir –
e por ali permanecendo       vivem
como se nada       inflando
lhes pudesse quebrar essa preguiça.

São como frágeis horizontes flébeis
sem linha a demarcar qualquer fronteira.
E de água feitas
irão morrer na sede do deserto.

nOitE FECHaDa

O sal das sombras queima os meus ouvidos.
E tudo adormeceu       sem calma ou luz.
Distantes se vislumbram arrepios
de gente retardada no percurso.
O que escuto são cinzas consumidas
e que largam o ar fétido       impuro.
Os meus olhos nublados de crepúsculo
entre a névoa procuram um sentido,
divisando fantasmas que lá longe
teimam surgir do caos onde se escondem
e caminharem até junto a mim.
E o que fazer… A noite está cerrada:
apagaram-se estrelas e outros astros –
e eu nem sequer os meus ouvidos sinto.

OnDa

De perene não tenho a solidez,
contínua permanência:
em ziguezague a vida nos preenche
o cansaço, a cegueira, a débil esperança,
e meandros perturbam a destreza,
neste trilhar distâncias,
de por fim alcançarmos
um estável mar, a terra sem feridas,
qualquer deserto arável:
de um ermo chão       vermos brotar espigas.
Filho da natureza,
de perene       não tenho a solidez.

RECADO

Com a tepidez amena do crepúsculo
de um fim de tarde tão silencioso
envio-te a canção que musicada
foi pelas cores raras e diversas
do momento litúrgico d’ incenso
amargo p’la distância do teu ser.
A limpidez da brisa agora começada
segue a cadência audaz do coração
azulando em surdina       com arpejos
os sulcos bem marcados da memória.
Se puderes, envia-me
a glosa enternecida de teus passos
para que eu ouça       então,
e nos primeiros raios de luar,
os acordes de desejar-te aqui.

a.s.

E deixarás o sulco, a marca fixa
do teu balancear por minha vida –
diáfana figura, matinal escultura
a perturbar os olhos – gesto mudo.
E de olhar sem te ver mas sempre ver-te
e sem sequer te olhar, tu foste a permanência
duma alegria lene, clara e quente
a espraiar-se por mim e sem te ter.
Em tempos diferentes, o lugar
não ajuda ao conforto da aliança…
E foi este o porvir: uma distância
que nos manteve sempre separados.