Valter Hugo Mãe – Espanha 1977

ortegaNarrativa, SO7

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VALTER HUGO MÃE

ESPANHA 1977

Para cima da igreja começavam os campos e havia muitas árvores. Por certos caminhos, a vila acabava e a mata punha-se alta a criar barreira. Para afastar as crianças dali, impedindo que fugíssemos mundo fora a inventar aventuras, diziam-nos que a partir da linha das árvores era Espanha. Era longe e terra nenhuma. Uma terra que não entenderíamos e que nos seria hostil. Outro povo, outras leis, facas, talvez pistolas, martelos com picos de ferro, muita facilidade na morte. Os perigos todos juntos. Perigos inimagináveis e muitas dores para sempre.

     Em Espanha, sabíamos com dificuldade, havia reis e príncipes e andavam a cavalo e vestiam ouro, luziam ao sol, eram ricos de serem antigos e furiosos, caçavam animais selvagens, usavam peles, habitavam palácios em tempo de paz e castelos em tempo de guerra. Casavam- -se bêbados. Tinham muitos filhos. Eram quatro ou cinco vezes mais do que nós. Eram demasiados e talvez nascessem em grupo, aos dez de cada vez, sempre furiosos e preparados para atacar. Tinham mais dentes do que nós, como se fossem crocodilos ou outros animais dos quais nem saberíamos o nome.

     Quando olhava para as árvores, a densidade que faziam, eu julgava olhar para muito longe e acreditava que bastaria mudar um pé até elas para que um mundo invisível se nos revelasse. Na verdade, os espanhóis eram dos contos de fadas, encantados como nos contos de fadas, cheios de sorte e inteligentes, eram felizes. Se puséssemos um pé em Espanha, as árvores vistas de perto haveriam de denunciar os palácios que albergavam, e poderíamos contemplar os bolos enfeitados sobre as mesas e as raparigas muito lavadas e perfumadas com roupas claras e os peitos redondos quase saindo do espartilho. Pensávamos que as raparigas espanholas faziam nada. Eram só bonitas e também felizes. Estavam sempre sentadas em contemplação com o ar de quem tinha uma natureza profunda e preciosa. As moças espanholas serviam para poemas e para pinturas importantes. Em 1977, as pinturas mostravam muito as pessoas de Espanha. Nos livros de escola falava-se de Picasso, Miró e outros. Eram, quase todos, artistas esquisitos, como se os espanhóis tivessem olhos na testa e braços a sair pelo umbigo.

     Nunca tive coragem para ir a Espanha. Não passava da rua que levava à igreja. Sendo o fim do país, era o fim de tudo para mim. Tinha medo que, depois de atravessar a fronteira, me tomassem e proibissem o regresso a casa. Imaginava a zanga da minha mãe por lhe ter desobedecido, e como entristeceria. Imaginava que ela, de traída, nem iria pedir o meu resgate, certamente frustrada com a minha incúria e estupidez. Pensava eu que ocupariam o meu lugar na família com outro menino qualquer, ou com um cão bonitinho, servil e mais afectuoso. De todo o modo, eu não sobraria para amargar muito tempo, imaginava que os animais selvagens, que o rei andaria invariavelmente a caçar, seriam implacáveis e que numa dentada me devorariam para sempre, com ternura e inocência incluídas. Ossos, olhos, tripas, ternura e inocência, tudo incluído na morte. Tudo morto.

     Contudo, acontecia de ter tardes de maior coragem. Depois da escola primária e a pensar que a primavera era benigna, eu ia por ali, às vezes na minha bicicleta, e pasmava diante das árvores e até atravessava a pequena rua e ficava quase sob os ramos mais compridos. Mas não colocava os pés em terra fértil. Ficava no batido da estrada, onde planta nenhuma medrava, e suspeitava que as próprias plantas adiante olhavam e conspiravam, talvez passando a palavra. Havia algumas carnívoras, isso sabia eu, e comer um rapaz tão magrinho como era eu até as flores de cemitério, cabisbaixas, haveriam de saber comer. As plantas carnívoras saberiam falar, de bocas bojudas e antipáticas balançando nos caules.

     Numa dessas tardes, sentado na bicicleta e a tentar ouvir ruídos estranhos, assustei-me e pedalei para o outro lado da rua, a pensar sempre que a estrada servia de linha de chamas, ardendo em minha defesa, esturricando o inimigo que tentasse atravessar. Ali fiquei, convencido da minha maior segurança, esperando. Subitamente, adiante, entre as sombras mais ao fundo, quase sem possibilidade de ser visto, eu vi.

     Passava o rei de Espanha a cavalo. Era um rei intermitente, aparecendo e desaparecendo, como uma lâmpada fundindo. Ondulava. Mas vi bem como estava de costas muito esticadas, importantes ou orgulhosas, e convenci-me de que sorria. Era indubitavelmente um rei contente. A coroa luzia. Foi por causa da coroa que o percebi. As pedras preciosas eram excêntricas e gostavam de fazer luz nos lugares mais apagados e, ondulando, a coroa acendia em cima e em baixo, passando, e eu, muito pasmado, estremeci inteiro.

     Eu penso que o rei de Espanha andava a caçar animais lentos, ou então ia apenas a passeio. Porque não ia à pressa mas também não estava com ar cansado. Estava satisfeito. Talvez já trouxesse a caça morta no dorso do cavalo ou arrastando nas ervas do chão. Pensei que a rainha devia ter criadas para cozinhar um banquete, a mandar apenas pôr mais sal como se fosse ela a cozinheira mais sabichona e esperta.

     Não era muito estranho que a Espanha fosse ali na vila de Paços de Ferreira. Durante muitos anos, por visitar no verão a família do meu pai que estava emigrada, pensei que a França ficava na Póvoa de Varzim.