Patrícia Reis A queda do amor

ortegaNarrativa, SO5

patrícia reis

a queda do amor

Para Maria Manuel Viana

R. mantinha uma lista de palavras para designar diferentes dores. Não a escrevera num dia de solidão particular. Foi um repente construída ao longo do tempo. De vez em quando acrescentava uma palavra. Havia outra lista, a lista dos mortos. Num caderno pequeno escrevia, sempre a lápis, o nome de todas as pessoas que conhecera e que desapareceram. Por norma, era apenas o nome, em certos casos acrescentava à lista uma designação. Por exemplo: Francisco José Marques, chefe de sala do restaurante “Lúcia e Família”. A vida profissional dos seus mortos era por vezes importante, outras nem tanto. Bastava o nome e podia ver logo ali, na sua cabeça, o retrato do morto, a forma como falava, os seus trejeitos. Os olhos.
R. prestava muita atenção aos olhos.
Podia dizer-se que fazia um inventário dos companheiros de vida sem qualquer intuito específico, por ser um passatempo algo mórbido, logo impossível de partilhar. R não partilhava muitas coisas na sua vida. Eram os parcos bons dias, palavras de circunstância, um aceno aqui e ali, a escolha do prato do dia, o pedir da conta. Coisas assim. Dentro de uma casinha pequena, via os carros passarem. Do seu lado esquerdo tinha o Cristo-Rei a zelar por ele. A ponte não o fascinava tanto, apenas nos dias de vento cruel, uma estrutura avermelhada capaz de abanar, uma pequena dança metálica sem consequências. R. ficava na margem de cá, incapaz de enfrentar os desvarios da cidade sem qualquer pretexto. Ir à cidade fazer o quê? Nada. O Tejo a estender-se para um mar que não vê? É cenário que basta. R. mantém o ar vigilante no trânsito, as comunicações entre cabines, o seu ofício certinho e a horas, as moedas contadas, os talões do multibanco. A maioria das pessoas pára o carro e não diz bom dia ou boa tarde. Essa poupança de palavras pode parecer algo estranha, até rude, porém R. considera a opção do silêncio como uma benesse. Escolheu este trabalho para não ter de interagir. Interagir não seria um verbo que utilizasse, apesar disso entende-se. Trabalha nas portagens desde os dezoito anos. Está a chegar aos cinquenta.
Na sua lista de mortos constam nove desconhecidos que decidiram terminar a vida ali mesmo, às portas da sua cabine, uns metros mais à frente, o corpo atirado ao rio que já é mar. Será mar? Um destes perdidos da vida, perdidos de ser ou estar qualquer coisa de jeito, tinha deixado o carro no parque da brigada de trânsito e R. tinha-o visto, por mero acaso, um casaco castanho, figura mirrada em direcção ao tabuleiro da ponte. Podia ter dado o alarme, mas estranhamente deixou-se estar porque com o tempo tudo se vai. Assim como a alegria, o amor, o ânimo. Lista de palavras começadas com a primeira vogal. As palavras, como os estados de espírito, têm curvas. R. sabe disso com aquela convicção idiota de quem acha que o mundo nasceu no momento em que o seu coração se partiu. Teria uns seis anos. Pouco mais, pouco menos. Possui uma memória vaga de um sentimento de humilhação, mas não consegue reproduzir o episódio de forma exacta, facto que o minimiza, que tenta combater. Sente que precisa de reviver algumas coisas, outras elimina.
Os mortos do tabuleiro da ponte não o atormentam; ignora o apito de quem viola a via verde; as pessoas que não lhe dizem bom dia; o filho que não liga; o nome completo da mulher que teve de escrever na declaração que entregou ao advogado e depois à polícia. Há pormenores da vida que são fulcrais, como se representassem em condensado o homem que decidiu ser. Fez uma lista sobre isso também. A lista do que seria quando fosse grande. A vida provou-lhe que os planos bem desenhados têm sempre falhas e, com ironia ou não, R. encarou os sucessivos desgastes, atropelos, desvarios, a total diminuição dos seus sonhos. Quem não sofre não ama, diz uma qualquer canção. R. sofreu — e sofre ainda agora — porque o homem que atravessou as faixas de trânsito, como um autómato, está quase a chegar ao ponto de não retorno e ele, R., o homem dentro da caixa gelada da portagem poderia fazer alguma coisa. Para quê? Se o homem se quer deitar pela ponte fora, rebentar com os alvéolos dos pulmões, é uma questão que o ultrapassa, o homem terá, decerto, as suas razões. Na esquadra, o polícia tinha dito a uma miúda apanhada com droga que ela teria de saber fazer escolhas na vida. A miúda chorava e o rímel escorria pela cara como uma pintura de palhaço. R. deixara-se ficar a ver, a ouvir. Captar a vida dos outros é uma das suas especialidades. O polícia arranjou lenços de papel, foi gentil, acrescentou que também tinha uma filha quase da idade do destroço que ali estava, mini saia e sapatos altos. E depois Não tens de saber o que queres. Tens de saber o que não queres. Percebes? Isso é igualmente importante. E tu não podes querer isto. Agora os teus pais vão chegar e vai ser um momento mau para todos. Precisas de aprender a fazer escolhas, percebes?
E a miúda, franzina, a dizer que sim com a cabeça. R. esperava a sua vez. Na verdade, até teria preferido ficar apenas ali, no banco de madeira, desconfortável, a medir o desgosto dos pais. Foi chamado por outro homem de uniforme azul. Era a sua vez. Não tinha como chorar. Mas sentia-se um palhaço igualmente.
   A minha mulher.
   Sim?
   Está lá em casa. Morta.
   Entendo.
   Entende? Eu não. Matou-se.
   Deixou alguma carta ou bilhete escrito?
   São sinónimos...
   O quê?
  Carta ou bilhete escrito. Sim, deixou isto.
O homem da autoridade pegou no papel A4 com linhas
escolares e leu:
Amor, a minha cabeça parece que vai rebentar. Nunca irei ser capaz de sair deste buraco. Os comprimidos não fazem nada. Tenho sempre os mesmos pensamentos. Nós não temos sobre o que falar. O nosso filho não aparece e eu sou uma mulher com quase cinquenta anos que nunca cumpriu nada. Pede desculpa à dona Esperança por mim, foi bonito ter-me dado a oportunidade de voltar a costurar, mas queres saber que já nem isso consigo fazer? Não te quis dizer nada. Tu ali enfiado na portagem, oito horas, ao frio e ao calor, a ganhar uma miséria e nós a comer latas porque eu já nem consigo fazer comer. Cada um de nós é o pior do outro. Trinta anos. Podia ter sido outra coisa, não é? Não me vou atirar da ponte, não quero ser um nome na tua lista de pessoas que se atiram à água. Deixei tudo preparado. Em cima da cama está a saia e o casaco azul-escuro e aquela blusa de que gostas, aquela que faz um laço à frente. Os sapatos estão no chão, junto à cama. Deixei-te os números das funerárias mais próximas. Gostaria de ser cremada, mas sei que não temos dinheiro, por isso acho que o mais económico é colocares o meu corpo na campa da tua mãe, ela não se iria importar. Pelo menos é um talhão que é da família e será inútil teres mais despesas. Tenta viver o melhor possível. Cuidado com as coisas que comes, evita os fritos e, por favor, diz ao Miguel que as mães não sabem nem podem tudo. Talvez ele nem se importe. Só Deus é que sabe do amor que lhe tenho. Tu perdoa-me, sim?
R. aguardou que o polícia lê-se tudo e depois sentiu- -se como a miúda à espera dos pais: perdido. O polícia tratou de tudo, levou-o a casa, falou com uma assistente social. Explicaram-lhe que tinha direito a tirar uns dias e seria oportuno ligar a algumas pessoas. Pediram o número do médico de família e da psiquiatra que tomava conta da mulher há uns anos. Ele foi respondendo a tudo com a mesma diligência com que dá o troco na portagem. Parecia que estava apenas a ser funcional. O filho falou com a polícia. Leu a carta e chorou. R. manteve-se no seu canto.
Miguel levantou-se e tentou abraçar o pai. R. deixou- se ser abraçado. Não sabia se amava o filho, era o filho. Não o via há mais de quatro anos. Reconhecia-lhe traços da mulher. Algumas expressões, o desenho dos olhos. Foi incapaz de dizer uma palavra que fosse e os dias correram depressa. A vida continua.
Estava nisto há já sete anos. O “nisto” significa para R. apenas um modo de vida que tem como princípio o básico exercício da respiração, de comer e desfazer-se da comida.
Tomar banho e arrumar a casa.
Pagar as contas.
Ser pontual.
Afinal, a silhueta a caminho do tabuleiro da ponte não é um homem. Consegue agora ver com clareza que é uma mulher de cabelo curto. Tem as mãos cruzadas em frente ao peito, porém não parece vacilar. Os carros continuam a passar, a cancela a subir, todas as marcas, volumes maiores e menores. Ninguém repara na mulher. R. pensa
Podia ser a minha mulher. Ou pode ser a mulher de alguém.
Vacila. Depois fecha a janela da sua casota, acciona a luz vermelha que revela que a portagem não está em funcionamento. Lembra-se de uma frase de uma canção que a sua mulher gostava
Às vezes o silêncio tapa os buracos e o amor prossegue intacto.
Agora faz fintas aos carros e vai na direcção da mulher desconhecida. Lisboa escureceu rapidamente e as luzes do presépio diário começam a piscar. R. tenta não olhar o Redentor de braços abertos. Está frio e a esta altura o vento não é ligeiro. As pessoas não pensam nestas coisas, é verdade, mas ali a noite está má e talvez ele não chegue a tempo. No edifício da brigada de trânsito ninguém reparou em nada. Talvez estejam a ver a transmissão de um jogo de futebol. R. não gosta de futebol. A mulher está a cerca de dez metros de distância, já no tabuleiro da ponte, na lateral. R. apressa o passo, quase que corre, as pulsações aceleradas, o suor na testa. E, por fim
Minha senhora!
A mulher vira-se sem qualquer surpresa. R. abranda, tenta recuperar o fôlego e quando está de frente para a mulher não sabe o que dizer e, talvez por isso, conta-lhe a sua história. Diz que nunca foi ninguém, que a viu ali daquela portagem, onde trabalha há mil anos, que sua mulher tinha uma depressão profunda, que o filho desapareceu, mas deve estar bem. Que faz frio e que há muita coisa na vida que não é para ser como pensamos que devia ser. Diz tudo isto sem fazer pausas, como se não existisse uma pontuação no discurso. A mulher mantém-se calada e olha-o. Fixamente. Ela é como o vento, um corpo magro num casaco enorme, vermelho, as calças a tremer, as mãos cruzadas no peito, como se se estivesse a segurar.
R. cala-se.
Não sabe o que mais dizer. Se a mulher quiser atirar-se agora, vai cair nos penhascos, na ravina, na terra, não sabe a denominação correcta, ma isso também é indiferente. Ela olha-o. R. não sabe se é para ele ou se é através dele e sente que o corpo pode levantar voo, a ventania mete medo.
Vai-se matar por alguma razão? A minha mulher matou-se porque tinha uma depressão.
A mulher descruza os braços, finalmente. Olha para o asfalto. Depois olha para R. e, inesperada, rápida, senta-se no chão. R. imita-a.
Quero morrer por amor.
Isso não é razão para morrer.
Porquê?
Porque o amor dura pouco. Os cientistas garantem que dura dois anos.
Quanto tempo esteve casado?
Trinta anos.
A mulher sorri e encolhe os ombros a mostrar a evidência. E a evidência é? R. não sabe. Não está confortável naquela posição e pensa que a cadeira da sua portagem é mais agradável, o aquecedor pequeno perto dos pés, o tubo de pastilhas de mentol, a rádio baixinho, a tocar, apesar de ser contra as regras. Não sabe o que está a fazer ali e prepara-se para se levantar. A mulher diz
Vai-se embora?
Vou. Se se quer matar, olhe hoje é um dia tão bom como qualquer outro, aliás é um bom dia porque não é fim-de-semana. Os fins-de-semana são uma chatice, sabia? Há os óbitos, a declaração, as funerárias, enfim. Pormenores. Para si não importam. Vai-se matar por amor. Força.
Ele não vai deixar a mulher.
E então?
E então eu não consigo viver sem ele.
Desculpe que lhe diga, isso é uma desculpa de merda.
R. vira as costas. Ouve a mulher chorar. Os carros continuam a sua marcha obediente, as motos da GNR estacionadas para impressionar, o estúpido do Cristo de braços abertos para todos os desgostos. R. volta para a sua portagem, liga o sinal verde, abre a janela. Já não vê a mulher. Porque não quer ver. Não olha para trás. Pensa em listas de palavras: morrer, morta, mortiço, mortalha. Nisto ouve uma voz que se aproxima, um carro que apita, é a mulher aos berros
Salve-me. Por favor, senhor, salve-me.
R. volta a acender a luz vermelha. Abre a porta da sua casinha, a cancela volta a descer. A mulher pergunta
Acredita no amor?
Não.
Acha que posso ficar aqui?
Não.
Podemos sair daqui e conversar?
R. veste o casaco e os dois estranhos partem em direcção ao tabuleiro da ponte.