João de Melo – Variações sobre um tema de Rulfo

ortegaNarrativa, SO8

JOÃO DE MELO

Variações sobre um tema de Rulfo

Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai,
um tal Pedro Páramo. Foi minha mãe quem mo disse. E eu
prometi que viria vê-lo quando ela morresse.
Juan Rulfo
(Pedro Páramo)

Decidi finalmente pôr-me a caminho de Santa Maria à procura do meu pai. Nunca tivera intenção nem vontade de o conhecer, e tão-pouco de arcar com o peso da sombra dele atrás da minha. Sabia-o amancebado com uma viúva amparada por bens herdados de família, nessa terra de exílio voluntário que eu, receando cruzar-me com ele, ainda não fora visitar. Deixou minha mãe para trás sozinha, comigo nos braços, para ir viver com essa mulher nascida na ilha que fica a sul da nossa. Não pretendi, bem entendido, incompatibilizar-me com Santa Maria, a ponto de nunca ter viajado até lá; nem quis propriamente revoltar-me contra a pessoa do homem, apesar do meu desprezo por tudo quanto me evocasse a sua existência. Desde que se desprendeu da vida de minha mãe e da nossa casa, não mais voltou ao ponto de onde partira. Não invocou um simples motivo, nunca deu qualquer explicação. Também não se lembrou de nenhum dos meus aniversários, nem de mandar perguntar por alguém como ia eu na escola, nem de me enviar uma prenda por ocasião de uma dessas festas de família em que só as crianças acreditam. Ao menos para saber se estava vivo e de saúde o único ser deste mundo que podia chamar-lhe pai e dizer-se filho dele. Nem que fosse só por isso!

É portanto natural que tenha deixado cair o pouco que sabia da sua história. Sem um nome nem uma imagem dele, acabei por esquecer a sua existência. Limitei-me a tomar o partido de minha mãe, dando-lhe sempre razão em tudo e mais alguma coisa. Até nisso denotava o meu desinteresse por esse homem cujo rosto eu mal descortinava por entre as brumas da minha mente infantil, e que me habituei a não mencionar ao longo de toda a vida. A quem me perguntasse por ele, respondia de imediato que morrera três meses antes de eu ter nascido, de modo que não chegara sequer a conhecê-lo. A sua figura caiu dentro de mim como tombam as folhas das árvores na passagem para a estação seguinte. Rolam pelo chão fora essas moribundas formas vegetais, primeiro a amarelecer, depois a secar, já murchas e enroladas sobre si, até que as leve o vento para o meio da erva e as arraste a enxurrada para a boca de um bueiro, inundando-se a rua nos primeiros dias de chuva. Também como as folhas mortas, desprenderam-se de mim a inocência, a memória, a pálida imagem de um rosto que eu vira apenas uma vez, sem curiosidade nem emoção, numa foto desbotada e fugidia na mão de minha mãe. E assim se desfez em mim a ideia do pai.

Aquilo de que me lembro – ou nunca pude esquecer – resume-se ao calor da sua mão a envolver a minha no tempo do frio. A grande mão do meu pai segregava um suor bom que se me infiltrava nos poros, tão quente quanto memorável. Devia possuir mais sangue, talvez mais sol do que a minha mãozinha de quatro anos mal feitos. A infância transformou-se na desolação da ausência dele para toda a vida. O meu passado não foi além de uma invenção verdadeira que me compensou de algumas perdas e das piores solidões familiares.

Minha mãe pôde muito bem ter-lhe perdoado o mal que nos fez. Eu é que não esqueci o abandono a que me votou em tão verdes anos. Não se tratou de uma evasão, nem de fuga de uma família para outra. O meu pai traiu a nossa casa. Trair uma casa significa optar por uma morada pior que a anterior e nela criar outra ideia de família. Levando o nosso passado consigo, deu-nos por inexistentes e sem história. Não deve haver pior mentira do que inventar a inexistência das pessoas que nos pertencem. Ninguém sonha uma vida presente e outra futura se já nos roubaram o passado. Uma falsa inexistência, como a nossa lá na cabeça dele, não foi mais do que a sua arte de apagar rostos de um retrato ou excluir nomes de um testamento de família. Anula o que fomos e vivemos com os outros. Retira-nos a posse de um mundo e a nossa pertença a ele; apaga o lugar comum daquilo que se viveu sob um tecto, entre as mesmas paredes de uma casa.

Tudo por causa dessa tal mulher, que igualmente não cheguei a conhecer. Consta que seria mais velha, mais feia, menos enamorada por ele do que a minha pobre mãe, que se gastou por dentro a amá-lo na distância e na ausência. No entanto, ela jamais me deu a entender a sua dor por actos ou palavras. Ao invés, mostrou um espírito tolerante na minha educação a respeito da família, sem dúvida com o intuito de manter em mim a luz, a imagem, uma boa opinião acerca dele, meu pai. Mas havia sempre uma nuvem a obscurecer a beleza antiga desses olhos maternos, que sempre eram meigos, cor de ouro velho, às vezes tristes. Enquanto vivemos juntos, eu fui a alegria da sua cara e do seu coração. Por mim, acreditou que o mundo continuava a ser belo e humano. E que valia a pena vivê-lo, cada um por si, até ao fim das nossas vidas.

Ela morreu-me devagarinho, qual chama de uma vela a apagar-se. Partiu em silêncio, sem dores aparentes, torcendo os olhos à minha procura para morrer a olhar para mim, de dentes cerrados e boca fechada, sem conseguir dizer por palavras o que luzia nos seus olhos dourados. Percebi que me transmitiam uma ordem ou um ultimato. Os olhos eram a prova acabada de que ainda agora se pode morrer de amor e com verdade, à maneira dos românticos. Morria pelo meu pai e por mim. Foi essa a mensagem da sua despedida: pagar o amor com o preço da própria vida. De olhos em mim, pedia-me que fosse à procura dele a Santa Maria e lhe desse a saber a certeza eterna do seu amor. E eu que voltasse depressa, a tempo de lhe dizer se vivia, como ia ele de saúde, se tudo ficara perdoado entre os dois – não fosse dar-se o caso de estar o meu pai, tal como ela, à entrada da morte, no desamparo de toda a gente, com receio ou vergonha de voltar. Dir-lhe-ia então que regressasse pelos caminhos do perdão. Ele a chegar, a abrir de mansinho a porta de uma casa que já lhe pertencera, a dizer-nos com a sua voz de homem, voz de um profeta regressado do deserto:

– Aqui estou eu, voltei.

De volta a casa, devolveria uma presença à vida e à morte da minha mãe. Mas como nada disso aconteceu, tudo se foi adiando entre nós, e ela acabou por finar-se, minha querida mãe, antes de me decidir a fazer-lhe a última vontade. Deixou-me este remorso de família, que talvez nem chegue a sê-lo, mas antes um mandado que o seu menino não levara a cabo na hora, nem cumprira como um dever.

E assim me resolvi eu a embarcar para Santa Maria.

Íamos dois seres reduzidos a um só, duplos um do outro. Um deles, mais ressentido do que apaziguado; o outro, movido pelo orgulho e pela gratidão dos olhos dourados de minha mãe, ao fazer-lhe a promessa de meter pés ao caminho e ir à procura do meu pai. Saberia se estava entre os vivos, que género de memória conservava ele da nossa casa, se mantinha algum amor por ela e por mim, seu filho. Ia num estado de espírito acalorado, a arder de indignação por dentro, embora aparentasse uma bem esforçada indiferença exterior. Afinal de contas, esse homem não passava de uma mão quente sobre a minha, de uma voz erguida acima do vento, quando falava e eu não entendia. Deixara de ser meu pai. Convertera-se num estranho sem nome nem qualidades: nunca me servira para nada, perdera toda a razão de ser na minha vida.

* * *

Ao cabo de seis horas de viagem através de um mar fervido pela nortada, o barco fez-se ao porto de Santa Maria. Mal atracámos, e após terem içado a escada até ao portaló, para o desembarque, foi verem-me sair de bordo a correr por ali abaixo, aos tombos cegos, tão desejoso de terra como de apressar a minha missão na ilha. Um bando de garajaus cruzou o céu por cima de mim, à procura do horizonte. As primeiras casas da Vila alcandoravam-se sobre a grande arriba, correndo depois em fio para o interior. Emborcados sobre a muralha, os canhões do Forte apontavam a corsários e piratas imaginários do alto mar que porventura ousassem aproximar-se da costa. Vi a ermida, a rua central com as suas casas alinhadas, outras anichadas à volta da Matriz, de um antigo convento, de edifícios brancos com debruns de basalto na fachada, de solares com bandeiras desfraldadas por os terem convertido em serviços públicos. Vi meia dúzia de homens à porta de um restaurante, a olhar, a certificarem-se de quem chegara e de quem iria partir para fora da ilha no barco agora acostado, a descarregar. Poucas mulheres na rua. Também não seria ainda a hora das crianças, pois não as vi. Velhos sentados nas soleiras das portas, sim. Uma ou outra senhora à janela. Todos os olhos me pareceram entregues a pensamentos tranquilos. À medida que nela subia, admirei a estranha beleza da ilha: a orla marítima amarelecida pela areia dos desertos africanos que a calema trazia até ali, segundo lendas que me haviam contado; o verde das terras amparadas por bardos, outeiros, sebes de canaviais, e cujos cabeços surgiam às vezes coroados pelas casinhas brancas e com barras azuis de Santa Maria; e a exuberância da natureza por ali fora, até à altura enevoada das montanhas.

Era tempo de ir terra dentro, a bater de porta em porta e a perguntar pelo meu pai. Mas como, se até o nome dele eu esquecera, por mais que minha mãe mo tivesse repetido, pedindo-me que nunca se me varresse da memória? Não existe pior ofensa, sublinhara ela, do que um filho esquecer como se chama o próprio pai. Sim, de facto, eu devia ter tido o cuidado de o anotar na minha agenda, onde guardo tudo o que deve permanecer à mão de recordar. Resta-me o quê? Percorrer as ruas, bater cantos e labirintos da Vila, procurá-lo em cada rosto de homem sentado, nalgum que se expusesse à frescura da tarde, a fumar, de olhos melancólicos, encostado a uma esquina, a jogar cartas com os amigos num jardim, a beber na mesa corrida de uma taberna. O pior é se ele já não mora na Vila; se, pelos acasos da vida, teve de mudar-se para uma destas povoações em volta, como Santo Espírito, Malbusca, Maia, ou São Lourenço, onde as sete ondas do mar, diz-se por aí, estendem os braços para terra enrolando-se com a areia da praia. Teria então de percorrer a ilha inteira, contar a toda a gente o pouco que sabia da história dele e da minha, na esperança de que me valessem nesta odisseia paterna: identificá-lo no seu mundo, ouvir o que me falta saber acerca da sua pessoa, invocar um nome que fosse o dele, e ser esse nome a levar-me à presença do meu pai.

Preparai-vos agora para ler o pior desta história. Nada disto é só literatura, e sim uma verdade sem paralelo nas glórias e misérias do mundo, e nas quais até a mim me custa acreditar. Fui dar com um animal humano, um homem velho, um andrajo, a barba e o cabelo longamente desgrenhados pelo vento, pelo sal invisível que voga no ar, pela areia voadora, e a pele do rosto sulcada por rugas ardidas e sinais escuros. Sentado na meia pedra de uma mó, a um palmo acima do chão, abrigava-se entre muros, à entrada para umas terras ao abandono. Ao lado dele, o que parecia ser um camalho: o colchão seboso, com o enchumaço de folheio à mostra, a manta de dormir torcida a um canto, cacos de loiças por lavar, um habitáculo a céu aberto. Impressiona-me sempre que se me deparam criaturas assim, tão à margem do género humano, sem o perdão da vida nem a graça do mundo. Fica-me a consciência presa a um misto de revolta e descrença, ante a minha obrigação de exigir justiça, encontrar solução para a tragédia ou limitar‑ -me a ir avante, de cabeça baixa, surdo a mais um pedido de socorro. Como se fosse possível dobrar a consciência e escondê-la debaixo do sovaco. Era essa a minha quota-parte na cobardia dos que se dizem humanos. Reduzi-me ao sentimento dos que sabem estar mal consigo e com os outros. Quis sair a toda a pressa dali, sem olhar para trás.

Deu-se aí o que eu estava longe de esperar que me acontecesse em Santa Maria. Os olhos dele. Os olhos, os olhos. Caíram sobre mim, abriram-se num espanto, presos aos meus, e os meus aos dele, por um poder magnético, grave e superior. Acabávamos de descobrir algo de primordial e de sanguíneo entre nós. O velho pôs-se dificilmente de pé, para ficar à minha altura. Senti que tudo se atordoava no interior da minha cabeça. Estarreci ante a visão súbita e ignorada do meu pai. Os olhos eram ovais e de um negro forte como os meus, mas bastante mais gastos, e também com uma nuvem remota a atravessar a sua condição de homem condenado à vida. Ficámos ambos a contas com o embaraço, ante a surpresa de termos uma só e a mesma imagem. Um de nós trazia consigo o passado do outro; e este o futuro do mais jovem. Comparei os traços dos rostos, para me certificar da nossa parecença recíproca. O único problema residia no cabelo e na barba, tão hirsutos quanto inapreensíveis pelos meus olhos. Não se viam as orelhas, as faces, o queixo barbado, a meia lua da testa, onde lhe suavam cabelos desgrenhados. Só os olhos. Apesar de em mau estado, os dentes mantinham o formato e a moldura dos meus. Os lábios finos, o nariz discreto e direito, as arcadas das fontes, o crânio, as sobrancelhas: iguais num e noutro, descontando os estragos do rosto, a pele riscada pelas rugas e a diferença de idades.

Tinha-o portanto na minha frente, a olhar, só a olhar, sem nada dizer. Algo se moveu dentro de mim, mas sem uma réstia de alegria. A ideia repetia-se na minha cabeça: ele era eu daqui a muitos anos; e eu devia lembrar-lhe a figura que ele tivera no tempo em que se considerara um homem feliz. Não resisti a mostrar-me todo ao exame da sua memória familiar. Abri os braços, incentivei-o a ver-me a mim de alto a baixo. Afastei a hipótese de lhe oferecer o meu corpo para que o abraçasse. Os olhos, os olhos. Ainda e sempre eles. Dilataram-se sob a força de uma indignação que me pareceu explosiva. Tanto podiam repudiar-me e lançar sobre mim a sua maldição, como ceder à prova da verdade que eu acabara de lhe anunciar. Dei uns passos em frente. Levantei uma voz de trovão autoritário, como se me estivesse a apregoar a ele e o intimasse a ouvir-me:

– Talvez sejas tu o meu pai. E eu serei o teu filho, talvez.

Não mais esquecerei o modo como reagiu a essas minhas palavras. Estremeceu de alto a baixo, como se acabassem de o acusar de ter cometido um delito. Vi-o baixar os olhos, meditar durante breves segundos com eles fechados, coçar a nuca e o pescoço, esforçando-se talvez por não soçobrar ante a emoção do momento. Devia ponderar um modo qualquer de esconder de mim a sua vergonha. Dei-lhe tempo a que se decidisse a falar. Logo a seguir, começou a ceder, a quebrar por dentro. Caíram-lhe molemente os braços. O corpo vergou para a frente, sob o peso da velhice, dobrado pelos rins. Como um animal que recolhesse à toca, voltou a sentar-se na sua meia pedra de moinho. Conformado, via-se que o fazia com sofrimento, num vagar arrastado, com a lentidão própria da idade. A sua figura resumia-se a um corpo ossudo, frágil, de ombros escorridos, porque já desistentes. A magreza excessiva dele e o meu porte de homem feito constituíam a maior diferença de tudo o que ainda possa existir entre nós. Cada mendigo mora sentado na sua pedra. A do meu pai subira por ele dentro, penetrara-lhe na dureza escura dos olhos, talvez também na cabeça e no coração. Algo em mim repudiava tal decadência, nascida no seu abandono propositado, nessa rendição dele a nada e a ninguém. Deplorava também a miséria culpada desse homem cuja paternidade voltava a ofender-me, desta vez mais do que nunca. A outra parte enchera-se de dó, esmorecida pela mágoa de um homem que perdera o jogo da vida. Nessa segunda parte de mim, a minha dor de filho despontava como a flor dos males que eu suspeitava ter ele vivido, durante tantos anos, às mãos da sua viúva rica de Santa Maria.

Disse-lhe ao que vinha e a mando de quem: a minha mãe desde sempre minha, antes e depois de morta. Comigo vinha um segredo: o pedido de uma confissão para descanso final da sua alma. Que ele aceitasse vir comigo, de volta ao princípio da nossa história comum, se porventura tivera em tempos algum amor por ela. Começaríamos por nos sentarmos os dois, pai e filho, à mesa a comer. Um pai e um filho têm de comer juntos, sentados à mesma mesa, ao menos uma vez na vida, disse-lhe eu, na esperança de o convencer a seguir-me. Nem me respondeu. Acocorado na sua pedra de mendigo, vergou ainda mais a cabeça e os ombros, a antecipar-me a sua resposta àquilo que eu ali viera fazer: reentrar na pessoa e na existência dele, falar-lhe do longo adeus da mulher, da sua morte difícil, do amor vivo e eterno de minha mãe durante uma vida de espera sem esperança por ele. Podia ser que o meu pai aceitasse tomar um banho, que alguém daquela terra lhe fizesse um corte decente de barba e cabelo, que se permitisse vestir uma roupinha comprada por mim. Tornei-me até um pouco erudito: disse-lhe que viera para tentar reaver a sua primeira humanidade. Impunha-se que deixasse Santa Maria de uma vez por todas e regressasse comigo à nossa casa da ilha de minha mãe, a de São Miguel, no arquipélago dos Açores.

– O que fizeste tu da tua vida, ó velho? – perguntei de rompante, para não permitir que se enfurecesse logo comigo. – Como te chamas, meu velho? Que males te mataram em Santa Maria? Anda, levanta-te daí e caminha comigo: sou eu o teu filho, tu és o meu pai. Vim por causa das nossas histórias da vida que nunca me contaste.

Revelados estes propósitos, empertigou-se todo, bravo como o mar, acusando o golpe fatal da minha surpresa. A respiração tornou-se-lhe mais grossa, como se sofresse de asma. Agitou-se-lhe o peito, arquejando. O rosto estava a contrair-se, a debater-se com a ira presa na garganta. Os olhos já não me pareceram neutros como no momento da minha chegada. Deu-se neles um assomo de cólera, uma fúria cega. Logo reconsiderou essa atitude. Vi que arrefecera, que serenara, readquirindo por fim a sua normalidade. Esperei um sinal, um arzinho de aceitação, ou que se pusesse a gritar comigo, contra a minha ideia de o levar de volta a casa. Veio-me dele uma voz que me provocou um calafrio; não sei se lúgubre, a voz, se apenas infeliz. Sem delicadeza nem cerimónia, berrou-me que me fosse embora pelo mesmo caminho que ali me trouxera e o deixasse ficar sozinho na sua paz. Que por nada deste mundo nem do outro revelasse à minha mãe (estivesse ela viva ou morta), nem a mais ninguém, que viera dar com ele assim, mais pobre do que a pobreza, velho, tonto e imundo, um homem arredado do coração humano, longe de todas as ilhas, esquecido pelos continentes do mundo. Derrotado e ofendido pelo universo inteiro. Sobretudo, a ninguém dissesse, nessa ilha de onde eu viera para ali chegar, que ele, meu pai, morrera como os mortos vivos, e que isso sucedera havia muito, muito tempo, demasiado talvez, tanto quanto fosse possível e imaginável a eternidade de um homem morto pela vida; e nada de ir espalhar por aí que o encontrara sozinho naquele estado; nem que o vira eu com estes meus olhos, assim tão profundamente morto, póstumo a qualquer apelo ou ideia de vida, um vivo morto a cem por cento em Santa Maria – uma terra de exílio voluntário que eu nunca antes quisera conhecer nem visitar.