António Barata – O primeiro suicídio

ortegaNarrativa, SO7

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ANTÓNIO BARATA

O PRIMEIRO SUICÍDIO

Ele entrou na taberna. Arrumou-se a um canto junto ao balcão e esperou o empregado que se inundava nas folhas de um jornal. Havia silêncio e pó a flutuar sobre o ar. Reparou no corpo gordo do empregado a mover-se e pediu uma cerveja.

Pousou-a à sua frente. Ele serviu-se de um gole e disse, vou-me encontrar com deus. O empregado olhou-o, reparou numa linha vermelha que lhe revestia a pele do pescoço. Reparou nas mangas da camisa que acabavam a meio do antebraço.

E o que vais fazer? A voz do empregado engoliu um sorriso. Pensou, um louco. Um bêbado.

Ele olhou o empregado. Moveu-se no banco. Arrastou a mão à anca e arrancou a arma que se guardava entre o tecido das calças e a pele branca. Pousou a arma no balcão e disse, vou matá-lo.

Os olhos do empregado pararam no revestimento metálico da arma.

 

A cadeira era o único lugar vivo da casa. O mundo dormia corcunda e de costas voltadas ao sol. O cinto de cabedal já estava preso a uma viga. Ele pousou os pés sobre a cadeira. Não houve um som que se prolongasse no instante.

As paredes escorriam silêncio.

Em pequeno, ele lançava uma moeda ao ar e pensava, se sair cara, deus existe, se sair coroa, deus não existe. Talvez o melhor fosse não olhar a queda da figura que pousava no centro da palma da mão.

Houve um instante que se sucedeu em outro. Um instante que não se prolongou. O corpo dele lançou-se num passo ao vazio. No pescoço sentia o frio do cabedal. O corpo dele moveu-se e a cadeira arrastou-se num movimento em queda. O corpo dele, preso pelo cinto, arrastava-se pelo ar.

Ele sabia que o mundo pequeno e plano, plantado por fios finos como novelos de lã, tinha sido cortado. O mundo plantado nas costas de deus, e onde cada fio era revestido por mil caos dentro de outros mil caos e outros mil.

Sabia que alguém havia cegado a razão. E essa lâmina pendia-se nos dedos de deus.

Depois houve um som. Um eco insuportável e a trave, a viga que suportava o peso do seu corpo, partiu. O corpo dele, quieto, no chão, e todas as palavras dos seus pensamentos escorriam húmidas por todo o seu corpo.

Se ao menos houvesse uma frase, uma voz, um gesto. Se ao menos houvesse uma palavra, um silêncio, uma lâmina.

Quando se levantou a cadeira estava morta. Caída. A cadeira onde se sentava quando desarrumava palavras com a cor da tinta. Ele era um poeta. Era um verso em desconstrução.

 

Quando se levantou, agarrou nas folhas perdidas sobre a mesa. Percorreu os dedos sobre a garganta das palavras, amachucando-as. Segurou esse volume de abismos, tempo, pó e vazio, e saiu de casa. Lançouse numa corrida de desaparecer até ao caixote do lixo. Lançá-las sobre o negro do lugar.

Os dedos levantaram o tampo metálico do caixote do lixo e lançou um mundo sobre lixo. Houve um instante em que as folhas foram como uma queda lenta e ao mesmo tempo sonora. Depois surgiu nos olhos dele uma luz branca. Um pedaço de sol. Uma explosão fina e certa e direta. Dentro daquele poço negro de lixo estava uma arma.

Sabia o que tinha a fazer. Enterrou o braço dentro do lixo, apertou o frio metálico, encaixou a arma sobre o tecido do casaco e voltou a caminhar para casa.

Houve uma voz.

Entrou em casa. Dirigiu-se à casa de banho e olhouse ao espelho. A barba pesava-lhe o rosto. Os olhos estavam inundados de negro e risco de sangue. Pensou: no princípio era o verbo e vou matar o verbo. Agarrou na arma e apontou-a ao seu fantasma. Ao vidro. Ao espelho. Pousou a arma quando o peso dela se aumentou e lhe percorreu o músculo. Segurou uma gilete e limpou o rosto.

Dirigiu-se ao guarda-fatos. Pó e tempo e silêncio. Apertou nos dedos um fato antigo. Vestiu-o. As mangas eram curtas. As calças eram curtas. A camisa era curta. Pensou: daqui a duas horas vou-me encontrar com deus. Acendeu um cigarro. Enfiou a arma junto à carne. Sorriu. E saiu.

O sol lacrimejava pela estrada do mundo e ele seguiu- o até à taberna.

O empregado enfrentava a voz dele com os olhos colados à arma. Ele pousou a garrafa de vidro no balcão e sobre as cicatrizes da sujidade. Atirou uma moeda ao balcão, guardou a arma e saiu. Os olhos do empregado recortaram cada passo dele até à saída, depois segurou na moeda sem lhe sentir o peso e guardou-a.

Atravessou as ruas e o sol sangrava no momento em que ele caminhava sobre o monte. As árvores estendiamse até ao céu. As raízes tocavam o coração do mundo. Ao longe via a pequena capela. Contornou-a e sentou-se no banco que se colava à cal branca.

Esperou pela eternidade. Olhou o relógio. Faltavam minutos. Acendeu um cigarro. Para lá dele existiam pequenos pontos de lugares. Apalpou a arma. Sentiu o seu peso. Esperou.

O relógio suportava um peso que passeava pelo braço. Contra a carne, os ponteiros escorriam numa força que se prolongava por todo o seu corpo. Os olhos dele eram incapazes de se centrar num lugar. Os gestos dele escorriam numa surdez ao mundo e ao lugar e ao tempo.

Uma brisa deslocava-se invisível. Uma folha rastejava. O pó secava. Dentro dele, deus ria-se.

Dentro dele, explosões agudas escorriam em gotas de suor frias. Passou a hora marcada e ele não existia. Mergulhou a mão na arma. Apertou os dedos à arma. Encostou o cano metálico ao lugar do coração e por cima do tecido da camisa.

Puxou o gatilho. Esperou ouvir um último grito. O último eco. Houve um silêncio. A arma era o silêncio do lugar. Desencostou a arma do peito.

Houve uma voz.

É amanhã.