Afonso Cruz – Contas para pagar

ortegaNarrativa, SO5

Image

afonso cruz

Contas para pagar

A primeira coisa que o Escritor costumava fazer ao acordar era vestir umas calças, caminhar até à cozinha, ligar a máquina de café, colocar os grãos moídos no filtro, verificar a água, carregar no botão, e esperar. Depois, usando ambas as mãos, para sentir o calor, pegava na chávena decorada com a Torre Eiffel e ia para a varanda. Gostava de se sentar a beber café enquanto olhava para a paisagem que se projectava da sua varanda do primeiro andar. O Escritor pousou a chávena no parapeito, tirou um cigarro do bolso das calças, acendeu-o com um isqueiro de plástico, usando a mão esquerda em concha para impedir que o vento apagasse a chama. O Escritor dizia que não era ele que escrevia, que não era ele o autor, que era um escravo da inspiração, que a sua mão se mexia comandada por uma força estranha à sua vontade, que aquelas histórias não lhe pertenciam. Era um processo extremamente doloroso, em que ele servia apenas de veículo. Muitos autores sentem exactamente a mesma coisa e garantem que a inspiração lhes escorre pelos braços, pelo corpo, pela cabeça, num processo mágico em que a escrita parece contornar a consciência para ser algo que sai dos dedos como a tinta sai das pontas das canetas. E tudo isto é acompanhado de uma dor imensa, como um parto, com sangue e com suor. Com o Escritor era exactamente isso que se passava. Era literalmente isso que se passava.
O Escritor, depois de apagar o seu cigarro, desceu as escadas para o primeiro andar, pegou no seu bloco, pegou na sua caneta de tinta preta, e serviu-se de um uísque que bebeu de um trago. De seguida, abriu a porta que dava acesso à cave –era nessa altura que costumava começar a ouvir gritos–, e desceu as escadas de madeira fazendo-as ranger como se sentissem esmagadas. Na penumbra, apenas ligeiramente iluminada pela porta aberta ao cimo das escadas, estava a inspiração do Escritor, uma das muitas vozes que ouvia para escrever os seus textos. Estava acorrentada à parede, juntamente com mais outras duas vozes. A primeira, a que ficava mais perto das escadas, era um homem de meia idade, de bigode. As outras duas eram mulheres: uma sexagenária corpulenta e uma mulher de vinte e sete anos.
O homem de meia idade era bancário. Tinha menos um olho, o esquerdo, que antes fora tão azul. Agora era um buraco cheio de sangue. Não tinha dedos nos pés, nem unhas nas mãos. A mulher sexagenária, corpulenta, tinha pregos enterrados no corpo. A mulher de vinte e sete anos tinha cabelos castanhos, ligeiramente avermelhados nas pontas. As três vozes estavam nuas. O Escritor puxou um banco, tirou mais um cigarro, acendeu-o, mandando calar as vozes com o seu braço esquerdo. A mulher de vinte e sete anos continuava a soluçar. O Escritor levantou-se, abriu o bloco na última página escrita, e leu em voz alta:

De repente, uns óculos caem no chão de mosaicos brancos e pretos. Um homem com sapatos cor de mosaicos baixa-se para os apanhar. A manhã entra pela janela como se fosse luz e reflecte-se na testa do homem, distrai-se, espalha-se, e percorre outros caminhos. O homem põe os óculos, ajeita-os, passa as mãos pelos cabelos, apoia os cotovelos na mesa.
O filho está à sua frente, com lágrimas nos olhos. O pai senta-se e bate com as mãos na mesa, assustando a criança. O sol atravessa a janela, atravessa a sala, atravessa a cozinha, reflecte nos pratos, estica os braços até tocar todos os talheres, todas as mobílias, até agarrar todos os guardanapos, todos os vidros, todas as roupas, lenços, camisas, casacos, todos os penteados, todos os lábios, todas as respirações. A luz agarra tudo. O homem levanta-se devagar e bate na mesa com os punhos. A mulher levanta-se também, mas fica atrás, dois passos atrás. O rapaz repete que é o Messias e os pais voltam a assustar-se.

— Foi isto que conseguimos ontem —disse o Escritor—. Hoje temos de fazer melhor.
A ideia de obter ficção através da tortura surgira-lhe há cinco anos, numa altura em que trabalhava numa agência de publicidade. A pressão e os os prazos apertados obrigavam a que surgissem ideias. É assim que nasce a inspiração. Um dia, pensou que poderia fazer com que esses prazos fossem muito mais prementes e eficazes: se as pessoas tivessem, não a ameaça de despedimento, ou de perder uma conta, mas sim a pressão da própria morte. A inspiração teria de surgir com mais rapidez, e com melhores resultados, se as suas vidas estivessem em risco. Então, o Escritor tomou a decisão de despedir- -se do seu trabalho na agência de publicidade, e dedicar- -se à literatura e à extracção desta através da tortura e da pressão que a morte iminente provoca. Pois se é possível extrair a verdade através da tortura, se é possível, ao infligir noutro ser humano um grande sofrimento, fazê-lo contar aquilo que mais quer esconder, também será possível fazer a coisa inversa, ou seja: através da tortura, extrair a ficção, a fantasia –aquilo a que o inquisidor normal chamaria de mentira, mas que um escritor chama ficção, matéria romanesca, criatividade.

O Escritor partia uma perna a uma das suas vozes e soltava-se uma borboleta. Se pegasse numa barra de ferro para partir uma rótula, dali surgia uma floresta africana. Arrancava unhas e pousavam-lhe pássaros nos ombros. A cada fragmento de dor infligida surgiam frases, parágrafos, capítulos, contos inteiros, finais felizes. A sua primeira experiência começou com duas mulheres que um dia lhe bateram à porta numa tentativa de evangelização. O Escritor prendeu-as, disse-lhes que as matava se estas não lhe contassem uma história de grande valor literário. As mulheres disseram-lhe que não percebiam nada de literatura. O Escritor encostou uma faca ao pescoço de uma delas que, imediatamente, começou a falar, a contar uma história. Foram as suas duas primeiras vozes, responsáveis pelo seu primeiro conto: O paraíso dos leões e das ovelhas. Era um bom conto, apesar de alguma ingenuidade e imaturidade típicas de uma primeira obra. O Escritor pôde confirmar, através dessa primeira experiência, que a morte era, enquanto pressão, a maior fonte de inspiração. E percebeu também que a tortura deveria ser prolongada ao máximo, pois isso melhorava a qualidade do processo. O escritor apagou o cigarro num pequeno prato de porcelana.
— Portanto, temos isto: uma criança que diz ser o Messias. Julgo que iremos continuar pedindo ajuda a esta nossa colega (o Escritor apontava para a mulher de vinte e sete anos).
Os outros dois, tanto o bancário como a sexagenária, soltaram umas lágrimas, provavelmente de alívio, por não terem sido escolhidos em primeiro lugar. O homem de meia-idade via tudo nublado, resultado da febre que o fazia delirar e tremer.
O Escritor levantou-se, aproximou-se da mulher de vinte e sete anos (que ininterruptamente repetia a palavra “não”: não, não, não, não, não, não, não, não, etc.), e, pisando-lhe o pé direito, bateu-lhe com a palma da mão aberta na cana do nariz. A mulher de vinte e sete anos que dizia “não” ininterruptamente, enquanto abraçava o próprio corpo como se estivesse com frio, caiu para trás batendo com a cabeça na parede. Não perdeu os sentidos, mas soluçava. O Escritor pediu-lhe que continuasse a história, explicou-lhe que tinha alguma pressão do editor, alguma pressão da crítica, tinha contas para pagar. A mulher continuava a soluçar e parecia não conseguir respirar, sentia-se debaixo de água. O Escritor levantou a mão direita para lhe bater novamente, mas interrompeu o movimento porque a mulher sexagenária começou a falar. O Escritor pensou: trabalho de grupo. Funciona sempre e é muito mais eficaz. Se a inspiração não sai da dor de um, sai da dor de alguém próximo.
A sexagenária continuou a história da criança que dizia ser o Messias, enquanto o Escritor escrevia:

A criança sente-se sozinha, como só o Messias se pode sentir. Está num lugar tão alto que ninguém consegue chegar perto. É um alpinista que subiu ao lugar mais alto, muito depois de acabar a montanha. Está num sítio inacessível. Insiste que é o Messias. O pai diz para o filho parar imediatamente. A mãe tenta outro tipo de abordagem. Diz-lhe que se ele é o Messias, que comece nesse momento a voar. Se o fizer, provará que tem razão e todos acreditarão nele. O menino não olha para ela. Olha para a janela. Parece impotente. O pai ri-se, e depois grita que já chega de loucuras. O menino insiste que é o Messias. O pai levanta um braço para lhe dar um estalo. A mãe põe-se entre o marido e o filho e diz para o menino ir para a cama. A criança retira-se para o quarto enquanto os pais ficam a discutir, na cozinha, quem teria sido o culpado pelo carácter extravagante da criança. Culpam-se aos berros, atirando responsabilidades como facas. Atrás deles há uma grande janela que dá para um bosque. Enquanto discutem, de costas para essa janela, o menino voa atravessando a paisagem.

— Muito bem —disse o Escritor—. Não está mal. Contudo, acho que podemos continuar.
O Escritor deu dois passos em direcção à mulher de vinte e sete anos. Acendeu o seu isqueiro e aproximou-o da cara dela. A mulher de vinte e sete anos começou a falar enquanto o Escritor escrevia:

Mas rapidamente se cansa e cai do céu. Morre quando bate no asfalto, numa recta entre montanhas, junto a uma bomba de gasolina.

— Porque é que ele cai? —perguntou o Escritor-. Não é o Messias?
— Por isso mesmo —respondeu a mulher de vinte e sete anos-, tem de haver sacrifício.
— Sacrifício? Gosto disso. Continua.
— Ele voa sem parar, quer mostrar a toda a gente quem é. Mas ninguém olha para cima, os homens já não sabem olhar para cima e reparar que as crianças ainda podem voar. A criança está cansada. Não está cansada fisicamente, mas tem o espírito exausto. Então cai.
— Compreendo —disse o Escritor.

A mulher de vinte e sete anos acrescentou ainda: —As crianças é que são o Messias.
E a sexagenária concordou, dizendo:—A criança caiu como todos nós: tornou-se adulta.
O bancário apertava as mãos e contraía os lábios. Quis dizer alguma coisa, mas faltavam-lhe as palavras.
O Escritor olhou para o seu novo conto. Decidiu não incluir as últimas frases que explicavam a queda. Estava contente com o resultado daquela manhã, estava contente com a palavra final: “gasolina”. Fechou o bloco, aproximou-se do homem de meia idade e enfiou-lhe um saco de plástico na cabeça. Atou-o usando uma corda e subiu as escadas que rangeram como se aplaudissem. Sentou-se na sua secretária, ficou por momentos a olhar para o bosque do outro lado da janela, mas depressa interrompeu aquele instante de contemplação: precisava de bater o conto à máquina e enviá-lo para o seu editor, se possível ainda nesse mesmo dia, pois tinha contas para pagar.