Cartas de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas

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antonio cándido franco

Cartas de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas

Ed. Perfecto E. Cuadrado, António Gonçalves e Cristina Guerra
Pref. P. E. Cuadrado

Lisboa, Documenta, 2014.

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Recolhe-se neste volume a correspondência de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas, um total de 134 cartas, algumas anexando poemas e prosas inéditos, escritas entre Agosto de 1941 e Dezembro de 1975. Tendo em atenção destinatário e remetente, o conjunto tem um insubstituível valor histórico para se perceber o que entre nós se passou com o surrealismo.

Um dos marcos deste livro é a vigésima oitava carta, de 24 de Novembro de 1953 e expedida para Luanda, onde Seixas acabara de chegar, depois dum ciclo de viagens por mar na marinha mercante. A carta relata a morte de António Maria Lisboa, companheiro de ambos. Esclarecem-se aí algumas dúvidas, como por exemplo em que momento soube Cesariny da morte do amigo. Fica-se a saber que só em 23 de Novembro, um dia antes de escrever para Luanda, teve ele notícia do falecimento –12 dias depois do sucesso.

Crucial também a carta de 22 de Março de 1950, escrita de Esposende, relatando o único encontro entre Cesariny e Teixeira de Pascoaes. O passo tem o valor acrescido de classificar de notável a conferência que lhe ouviu em Amarante sobre Guerra Junqueiro –passava então o centenário do nascimento deste– e de nos dar um primeiro retrato de Pascoaes, que em nada se afasta do que décadas depois fará. Assim (p. 69): Quanto ao Pascoaes, é um caso de grandeza que o faz sair desta terra para atingir sem dificuldade o “espaço finito mas ilimitado” como ele diz. A sua admiração por Pascoaes, como se vê, começou cedo e nada tem a ver com a angústia da obra de F. Pessoa, que foi a forma desajustada como críticos ulteriores quiseram ler a preferência de Cesariny por Pascoaes.

A correspondência revela ainda aspectos da vida privada do grupo. Pela carta vigésima primeira, do início de 1950, percebe- -se que Carlos Eurico da Costa e Mário Cesariny se apaixonaram um pelo outro, vivendo uma exaltante história de amor. Mário Cesariny tinha 26 anos e Carlos Eurico vinte e um. Lê-se na carta: Foi extremamente belo o que entre mim e o Costa se passou na Barca. (...) Ele está agora numa crise grande, em Viana, e precisa de ânimo e notícias tuas (na carta que recebi hoje pede-me que tas peça). (...) Creio que lhe é horroroso viver naquele mundo, depois dos dias de liberdade e amor –grandes– que teve na Barca. Entende-se o horror. O que é significativo é que alguns anos depois, em 1965, pouco depois do regresso de Luanda, será a vez de Seixas e Carlos Eurico se apaixonarem, o que levará Cesariny a exclamar na carta de 28 de Outubro de 1965 –Vejo também com terror que o Carlos Eurico... Bem não há amante meu que não tenha chorado por ti.

As primeiras seis cartas de Cesariny cobrem a segunda metade de 1941 –tem Seixas 20 anos e acabou Cesariny de fazer dezoito– e têm um valor altíssimo para a reconstituição dos valores destes dois adolescentes no período da sua formação. O que se tira, até pelo conto inédito que acompanha a segunda carta, de 21 de Agosto (Cesariny tinha feito 18 anos a 9 de Agosto), é a adesão aos clichés do neo-realismo, o que não surpreende, já que o convívio de Cesariny e de Lopes Graça começou em 1941. O sentido, ou o não sentido, do neo-realismo em Cesariny é hoje um buraco. Encontram-se nas 16 cartas escritas entre 1941 e o estio de 1946 preciosos elementos para esclarecer esse primeiro percurso.

Pela correspondência ficamos ainda a saber que Cruzeiro Seixas terá deixado Lisboa, ao serviço da marinha mercante, na Primavera de 1950 e que se instalou em Luanda no Outono de 1953, donde só regressou em 1964. Quer isto dizer que Cesariny e Seixas estiveram sem se ver 14 anos. Nesse arco Mário Cesariny escreve 45 cartas para Luanda. Em carta de 14 de Janeiro de 1964 Mário Cesariny informa que está de partida para Paris. Na carta seguinte está já em Paris, convidando o amigo a juntar-se-lhe. No final dessa Primavera Seixas regressa a Portugal. Pela carta de 8 de Setembro sabemos que está de partida para Paris. Ora na carta seguinte, de 23 de Outubro, escrita cautelosamente em francês, Cesariny está preso na prisão de alta segurança de Fresnes e o destinatário já em Lisboa. Que se passou? Na noite da chegada de Seixas, Cesariny leva-o a um cinema de encontros sexuais e acaba preso pela polícia francesa. Os dois amigos não se falavam cara a cara há muitos anos e passam juntos, no momento do reencontro, umas escassas horas.

Após o regresso a Lisboa de Cesariny, em 1966, a convivência retomou mas foi curta. As quatro cartas finais, entre Julho e Dezembro de 1975, com cada um deles amuado no seu canto, são de ruptura –que durará 30 anos. O reencontro só se deu três semanas antes da morte de Cesariny, a 7 de Novembro de 2006, numa exposição conjunta. Este longo desentendimento não faz porém esquecer a forte atracção que ligou estes dois destinos.