António M. Feijó – Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes)

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ANTÓNIO CâNDIDO FRANCO

Uma Admiração Pastoril
pelo Diabo
(Pessoa e Pascoaes)

António M. Feijó

Lx., Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2015.

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Comece-se pelo título, que é um enigma. Nunca um título soou tão estranho e tão sem sentido como este. Porquê uma admiração pastoril pelo Diabo em livro dedicado a Fernando Pessoa e a Teixeira de Pascoaes? O autor no pórtico de abertura dá ao leitor uma indicação para a escolha. O título do livro é uma citação do conhecido romance de Musil, diz (p. 7). Homenagem pois ao romancista austríaco. Um enigma, porém, nunca pode ser só celebração – é também charada a necessitar duma chave interior. A adivinha decifra-se aqui trocando a palavra “diabo” por Pessoa. Logo: uma admiração pastoril por Fernando Pessoa. Mas porquê pastoril? Com certeza pelo destaque que o autor dá ao mais bucólico dos heterónimos, Alberto Caeiro – que em texto dado a conhecer em 1990 (Pessoa por conhecer, vol. II) o seu criador identifica com Lúcifer (p. 134).

Basta a interpretação do título para se perceber a riqueza do livro. São sete densos ensaios, seis dedicados ao universo de Fernando Pessoa e um, dividindo os outros em metades iguais, consagrado a Teixeira de Pascoaes. Trata-se pois dum livro maioritariamente pessoano mas dum pessoanismo novo, subtil, rico, estimulante, capaz talvez de renovar, e assim o desejo, um terreno de trabalho que se afundou há muito num vago marasmo documental, sem grande significado nem exaltação.

Os pontos fortes destes estudos sobre Pessoa são: a vasta erudição ânglica do autor, que lhe permite observar com nova pertinência um universo muito marcado por pretextos anglo- -saxónicos; o recurso à cultura clássica – é notável por exemplo, no final do capítulo III (p. 75), o cruzamento da despedida (escrita) inglesa de Pessoa, já no hospital de S. Luís dos Franceses, I know not what tomorrow will bring, com um verso de Horácio (ode, IX 13), quod sit futurum cras fugere quaerere; o bom conhecimento que o autor tem da galáxia pessoana e o critério fluido, grandemente elegante, com que a convoca. Porém, o que é digno de nota no conjunto não são tanto os fios que apresenta, mas a forma como os combina, reabilitando tópicos, os mais anti-românticos em geral, que pareciam estafados.

Deixo para o fim Teixeira de Pascoaes, a quem Feijó dedica um dos sete ensaios do livro. A primeira observação a fazer, em livro subintitulado “Pessoa e Pascoaes”, é a desproporção de espaço dum e doutro; Pessoa tem seis de sete capítulos e Pascoaes apenas um, posto que ao longo dos três primeiros, consagrados a Caeiro, ele surja, como era de esperar, com frequência. Já nos três últimos apenas se regista para Pascoaes uma brevíssima alusão, em nota de rodapé (p. 128). É muito pouco e parece-nos que no capítulo V, “Política sexual”, em que sobressai o virgem negra sexualizado por Cesariny, se perde boa ocasião de o convocar.

O capítulo sobre Pascoaes é todavia um estudo denso, articulado e desenvolvido, com observações certeiras, que soube escolher um Pascoaes singular, o pós-pessoano autor das biografias (1934-1945), que é aquele que mais desafia o futuro e o próprio Pessoa, que não teve tempo já de o absorver como “precursor”, categoria de eleição deste livro. O estudo retoma num quadro mais largo mas sem acrescentos essenciais o prefácio que o autor deu à reedição de São Jerónimo e a Trovoada (1992). Acrescentou-lhe agora uma nota final em que aproxima o pensamento de Pascoaes do de Harold Bloom. O paralelo entre o deicídio de Pascoaes e a teoria do pai e do filho em Bloom é fecunda e não levanta dúvida. Em todo o caso, esta curta nota (página e meia!) está longe de esgotar, e até de explorar com proveito, o sistema gnóstico dos dois escritores, que do lado português precisa de entrar em conta com um livro do mesmo período, Duplo Passeio (1942), a que Feijó nunca recorre, e saber que nem sempre o gnosticismo é o “sistema” de Pascoaes, que tende nos momentos mais tensos para um indeterminismo que parece já escapar àquele.

Por último a única ressalva séria que faço ao livro. Trata-se da Filosofia Portuguesa, que surge em dois momentos, o primeiro no capítulo III, o segundo no IV. Cito o primeiro (p. 62): Pascoaes foi capturado por uma construção que a si mesmo se designa, numa aparente contradição nos termos, “Filosofia Portuguesa”. É visível que o autor nunca leu Álvaro Ribeiro, que pouca atenção prestou a Pascoaes e que seria grave dar como seu discípulo, nem José Marinho, que esse, sim, dedicou muita leitura a Pascoaes mas sem “capturar”, sem se fazer servil e sempre acima de debilidades. Todavia este erro de juízo não chega – por ser apenas um pequeno nó num corpo mais vasto e muito mais pensado – para estragar as tantas e tão apreciáveis páginas que o livro tem.