Vasco Rosa – Joaquim Novais Teixeira, um europeu do século XX

ortegaEnsayo, SO6, Suroeste

vasco rosa

Joaquim Novais Teixeira,
um europeu do século XX

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ALMERINDA PEREIRA. Valter Hugo Mãe. 2014

A José Rentes de Carvalho

Nascido em Guimarães a 21 de Abril de 1899, e falecido em Paris a 7 de Novembro de 1972, Joaquim Novais Teixeira foi poeta, jornalista, tradutor, enciclopedista, cinéfilo, teatrólogo, crítico de arte... A sua vida aventurosa e intensa pode apresentar-se em quatro ciclos sucessivos, claramente distintos embora comunicantes e muito marcados pelo tempo histórico e pelos países em que viveu: os seus anos de formação, na cidade-berço e no Porto; o período espanhol, 1919-39; o período brasileiro, 1941-48; o período francês, 1948-72.

Vivendo mais de 50 anos fora de Portugal, em terras de exílio e rodeado por exilados, teve sempre o país no ponto de mira e Guimarães no coração. Alfredo Pimenta pode ter sido sido um dos seus mentores políticos, em tertúlia no Oriental, exuberante café de Guimarães destruído na década de 1960. Novais dedica-lhe um poema em 1919; e a forma ao permite deduzir uma relação pessoal. Ainda assim, a intensidade do seu envolvimento no movimento restauracionista dito Monarquia do Norte, pouco depois, não ficou esclarecida pelas dezenas de livros sobre este tema (um dos quais inclui uma lista de implicados, identificados ou detidos). O facto de Henrique de Paiva Couceiro (1861-1944) ter sido seu padrinho de casamento em Madrid, quatro anos adiante, deixa claro que Novais manteve relações especiais, mais cedo ou mais tarde, com as principais figuras das tentativas monárquicas de encontrar uma solução política para o caos que a república havia tornado Portugal, mas a descoberta de cartas a António Sardinha veio iluminar de vez o seu envolvimento profundo com o movimento monárquico, e ao menos uma parte do seu quotidiano nos primeiros anos em Madrid. Falando de «juramento» à Causa, vive em hotéis baratos com pensão de exilado, diz-se pronto para voltar à pátria «de cabeça», recusa entregar-se às autoridades para ser repatriado e preso, fala do seu trabalho numa instituição bancária e até das dissensões e e dos egos dilatados que minavam aquele movimento político. Após uma incursão breve ao Porto, ainda em 1919, comenta que Portugal estava «horroroso».

Madrid foi, de resto, no longo período em que Novais lá viveu, o destino de muitos exilados portugueses, de diversas tendências políticas, em especial após 28 de Maio de 1926. Entre estes, assinalem-se o citado Sardinha, António Sérgio, Jaime Cortesão, Fidelino de Figueiredo, e João de Sousa Fonseca. Este publicista de grande fôlego e influência (e também um dos poucos amigos presentes no funeral de Fernando Pessoa, seu colaborador) será parceiro, amigo atento e um considerável estímulo para Novais Teixeira ao longo desses anos. Enquanto editor de Ilustração e Magazine Bertrand — e pessoalmente empenhado, também como tradutor, na divulgação da cultura espanhola —, a ele se deve toda uma série de artigos e entrevistas sobre artes plásticas e teatro de Espanha que Novais Teixeira assina de 1927 a 1930, a par de traduções de textos literários de Wenceslao Fernández Flórez e Pio Borja, por exemplo, estes ilustrados por Almada Negreiros. Curiosamente, o trabalho de tradutor literário inspira-lhe então narrativas breves, que nunca retomou. Juntos, Fonseca e Novais haveriam mesmo de traduzir um célebre êxito teatral, Tarari! de Valentín Andrès Alvarez, representado em 1930 no Politeama de Lisboa por Maria Matos e outros, e parcialmente traduzido nos Magazine Bertrand de Novembro e Natal desse ano. Neste contexto, não será atrevimento dizer que Suroeste. Relaciones literarias y artísticas entre Portugal y España, 1890-1936 (Badajoz, 2010) — apesar do enorme passo — falhou redondamente no destaque devido ao protagonismo de Joaquim Novais Teixeira nas relações culturais luso-espanholas nas décadas de 1920-30. Foi, por exemplo, o único português a colaborar num número especial da crucial Gaceta Literaria dedicado a Miguel de Unamuno, de 1930. E escreveu em português. Almada desenhou-o a comprar numa banca El Sol, diário madrileno que foi uma grande referência nos meios culturais da altura.

Sousa Fonseca faria mais: secretário executivo da Grande Enciclopédia Luso-Brasileira, haveria de trazer para Lisboa o amigo, reconhecidamente qualificado, para reforço da equipa inicial desse empreendimento, de Dezembro de 1935 a Abril de 1936. Apesar de alguns bons novos amigos, como Manuel e Berta Mendes, Lisboa parecia irrespirável: poucos meses antes, Salazar e Carmona assistiam, ali mesmo em frente, no São Luiz, à estreia do filme italiano Camisas Negras, um louvor do fascismo, 4000 turistas germânicos da nacional-socialista Força pela Alegria invadiam Lisboa e os «Ecos da Semana» de Carlos Botelho no Sempre Fixe, em Março de 1936, e até Correia de Oliveira, o «seu poeta» doutros tempos, dedicava nesse preciso ano Pátria Nostra ao ditador nascido e sepultado em Santa Comba Dão. Além disso, já antes Sousa Fonseca lhe atribuira o posto de correspondente em Madrid no lançamento de um diário lisboeta, Jornal, de que sairia apenas o primeiríssimo número, a 8 de Junho de 1929. A sua «carta de Madrid» é dedicada ao pintor catalão José de Togores i Llach (1893-1970). Havia um claro ensejo de aproximação ibérica nas artes e letras.

Determinante foi também o portuense Américo Fraga Lamares, que o nomeou representante em Madrid da editora Civilização, numa fase de grande expansão empresarial e técnica, e responsável pela escolha e tradução em ritmo acelerado, em 1927, de obras de Alberto Ínsua (1885-1963) e Pedro Mata (1875-1946), entre outros. O Nuevo Mundo de 4 de Março desse ano regista o banquete madrileno em que o editor reuniu alguns desses autores, Novais Teixeira e o influente e exuberante Ramón Gómez de la Serna. Dias depois, a 15, Luis Amado Herrero, do La Libertad, entrevista o «culto e inteligente» editor portuense, sublinhando a «valiosa ajuda» que lhe presta Novais Teixeira, «senhor que por sua cultura e trato afável soube captar as simpatias da intelectualidade espanhola».

Novais estava muito integrado nos meios culturais madrilenos. Participa em homenagens a escritores e a artistas plásticos, frequenta o Atheneo e o Circulo de Belas Artes, os cafés e as suas tertúlias, vai em excursão de intelectuais ao Escorial… A sua primeira colaboração para O Comércio do Porto (8 de Outubro de 1927, pp. 1, 3) tem precisamente como título «Como são julgados em Espanha os novos valores literários». Por mínimo que fosse, a recém-formada Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses torna-o seu representante em Madrid. Em 1927, Novais está consciente do muito que pode fazer como «jornalista cultural» avant la lettre em Madrid, e tenta inicialmente, por interposta pessoa, chegar a uma colaboração deste tipo em O Século, que todavia falha. Acabará por cumprir esse desidério programático sobretudo na Ilustração, que se lhe refere como «o nosso querido e prezado camarada, prosador irrequieto e nervoso», elogio modernista pela certa. Quando, em Julho de 1928, os modernistas lusos levaram a Madrid num avião Junker o sr. João Franco, empregado de mesa da Brasileira do Chiado, Novais lá está, todo sorridente, como prova uma fotografia do banquete de homenagem. O facto de ter acolhido em sua casa José de Almada Negreiros, «travesso futurista do Orpheu» (como lhe chama carinhosamente) e artista vanguardista com actividade intensíssima na capital espanhola, mas vivendo com dificuldades, é merecedora da maior consideração.

Luis Buñuel morava na Gran Vía, perto da sua casa, na Vía del Reloj, mas não foi ainda provado que se tenham conhecido e estimado nesse período: o cineasta trabalhava intermitentemente em Paris e nos Estados Unidos, e o interesse de Novais por cinema era por essa altura muito discreto ou reduzido. Mas não tinha como ignorá-lo: Don Luis escrevia habitualmente na Gaceta Literaria sobre cinema e haverá em 1930 todo o escândalo, proibições e meses depois uma projecção elitista do filme surrealista Age d’or, radical fronteira estética cujo eco ainda gera perplexidades. Não reconhecemos Novais na fotografia dum banquete de 1923 em louvor de Gómez de la Serna em que Buñuel comparece, nem em outras de repastos do cineasta com numerosos amigos alguns anos adiante. Os seus caminhos podem se ter cruzado durante a guerra civil, quando Buñuel filmou por encomenda oficial ou cuidou de arquivos patrimoniais, mas nada ainda da grande empatia e amizade pessoais das décadas de 1950 e 60.

Com o regresso a Madrid e o início da colaboração pessoal com Azaña na chefia dos serviços de imprensa do governo da segunda república, abre-se um ciclo violento na vida de Novais Teixeira. Rentes de Carvalho, amigo e confidente, haveria de ficcioná-lo num dos seus contos, «Um amor em Sevilha» (1987). Assiste aos horrores da guerra civil e está no olho do furacão da deriva republicana até Barcelona, fugiu a pé pelos Pirenéus, alcançou Marselha, foi metido num campo de refugiados e libertado por acção da embaixada brasileira, vai para Paris, onde já estão Azorín, Pío Baroja e outros amigos ilustres (que aparentemente não encontra), vive em condições precárias essa sua segunda experiência de exilado acossado e sem direcção, assiste à ocupação da cidade pelos nazis e aceita em Setembro de 1940 uma amnista para voltar a Lisboa, com passaporte específico, que está na Torre do Tombo. Todavia, Novais — que fora vigiado em Madrid por agentes da polícia política portuguesa (as suas relações políticas e de amizade com adversários de Salazar activos em Espanha com algum protectorado do governo republicano colocavam-no sob suspeita) — integrava uma lista de cidadãos a capturar, e em Vilar Formoso é detido pela polícia política, separando-se então de sua esposa Julia e do filho adolescente, que voltam a Madrid. Transferido para o Aljube, enfiado numa gaveta, aí passou um semestre, para ser interrogado pelo próprio secretário-geral da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, José Catela, assistido por António Rosa Casaco (1915-2006) em início de carreira de torcionário. Num tal aperto, propõe-se ler sobre Auguste Rodin e, saudoso do seu Minho, pede a amigos que lhe façam chegar vinho verde tinto. Diz-se que foi movida uma campanha em sua defesa entre jornalistas e intelectuais, mas certamente a tenaz da censura impediu que de tal houvesse reflexos nos jornais, e dos autos e documentos policiais disponíveis nada consta. Em Portugal 1940, uma cortina de triunfalismo histórico balofo ocultava a degradação da vida comum, enquanto a experiência do cárcere político deixara marcas indeléveis. «Não é módico o preço da liberdade», escreveria em registo obliquamente autobiográfico de 1950.

É forçado à saída do país por tempo indefinido e conduzido do cárcere ao navio, levando no bolso um passaporte concedido a 12 de Novembro de 1940. Numa Europa crescentemente a ferro e fogo, com a Inglaterra em risco de invasão germânica, a opção Brasil figurava-se como a única sensata, atendendo à reduzida aptidão linguística de Novais Teixeira (vinte anos depois, García Márquez haveria de lhe dizer «Falas mal todas as línguas em português», blague que correu entre amigos). Mesmo assim, o Brasil não lhe era apenas linguística e geograficamente confortável. Permitia-lhe reunir-se a antigos companheiros, com eles recomeçar a vida e o combate político, e ao mesmo tempo beneficiar do «ar de família» criado pela sedimentação de muitas gerações de emigrantes minhotos — a que não era de todo indiferente.

Afastando-se da barbárie da guerra civil e da humilhação do cárcere e da ditadura, Novais encontrou na exuberância tropical, na paisagem paradisíaca da Baía da Guanabara e na afabilidade brasileira, no trato e no acento, um bálsamo para as dores do passado. Nos cinemas Carmen Miranda, pequena e graciosa do Marcos de Canavases, fazia furor em Technicolor com «Cai, cai», canção do filme That Night in Rio em que pergunta: «Quem mandou escorregar?» José Miguel Wisnik, revisitando Oswaldo de Andrade, comentou que o Pão de Açúcar, celebrado ícone do Rio, precisamente porque «nunca se acaba de entender», nos dá esse algo de «muito concreto» em que temos de nos mirar «para poder re-existir». O importador de livros A. Herrera, da Rua Rodrigo Silva, podia abastecê-lo, sem demora, dos álbuns de arte sobre Ruskin ou Goya comentados pelo seu desconcertante amigo Ramón Gómez de la Serna, encontraria boa comida minhota no Café Lamas ou na Casa Villariño (ou até mesmo em qualquer esquina) e, vimaranense de todos os costados e míope, poderia ser cliente da Casa Guimarães, na movimentada Rua Uruguaiana, afinal «a mais popular casa de óculos do Rio», conforme a publicidade.

À pulsão monárquica juvenil e depois ao comentário jornalístico semanal da política espanhola stricto sensu sucedia, até pela força das coisas, uma consciência mais globalizada dos problemas contemporâneos, que em Espanha o choque das ideologias levara a extremos verdadeiramente sanguinários. Abre-se assim em Novais Teixeira um interesse maior pela cena internacional, a partir dum ponto de vista periférico, longe dos campos de batalha mas inequivocamente tocado pelo alarme humano em curso.

Sabemos pouco dos seus primeiros passos no Rio. Ainda que anunciada às entidades policiais portuguesas, a sua colaboração com o escritório brasileiro da Enciclopédia, a ter existido, foi efémera. Podemos, todavia, imaginá-lo a frequentar o Café Nice, feudo de jornalistas na centralíssima Avenida Rio Branco, 168, como mostra um divertido friso deles desenhado pelo inconfundível Nássara (1910-96), no Diretrizes de 19 de Junho de 1941. Atento como era, não lhe passaria ao largo a bela revista Sombra, onde escreviam e ilustravam os melhores, e o arquitecto português Eduardo Anahory já criava fantásticas capas, cujo expoente viriam a ser as de Março e Abril de de 1943. Mas, a chave da sua integração rápida nos meios culturais e jornalísticos terá sido a Revista Académica, que havia anos primava pela qualidade, e logo em Julho de 1941 dedica um número especial ao grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Acredito que foi «por aí» que Novais Teixeira se ligou muito rapidamente à nata do jornalismo brasileiro, a que nunca faltaram grandes talentos.

Redactor dessa revista, Moacir Werneck de Castro (1915-2010) foi um deles. Nos seus dois livros memorialísticos, Moacir, que teve avô visconde nascido em Vila Nova de Gaia, faz referências a Novais, uma das quais, em Europa 1935. Uma aventura de juventude, vale a pena transcrever: «Um jornalista português, Joaquim Novais Teixeira [...] refugiara-se no Rio de Janeiro. [...] Tinha uma cultura literária e artística aprimorada em Paris, era admirador de Juan Miró e Antonio Machado. [...] Cantava canções do tempo da guerra espanhola, como a versão anarquista do hino republicano. […] Fomos vizinhos num prédio da avenida Copacabana, o conhecido 1138, servido por um romântico funicular.» Ambos escreverão por anos nos mesmos jornais. No Diário Carioca de 9 de Abril de 1944, Werneck de Castro haveria de proclamar que a Revista Académica era uma «trincheira da República Espanhola no Brasil».

Moacir foi amigo e também biógrafo do «exílio carioca » de Mário de Andrade (1893-1945), figura-chave do modernismo e da cultura brasileira do século passado, e Antônio Cândido em relato escrito fez-nos saber da alta estima que Novais tinha pela obra deste Andrade, que muito provavelmente também conheceu pessoalmente, apesar de não restarem provas documentais disso. As pessoas (re)conheciam-se. Tão próximo de Werneck, Novais pode muito bem ter ido ao jantar de homenagem pelos cinquenta anos do escritor Graciliano Ramos, em 1942, a que compareceram, entre muitos, o seu amigo, Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Jorge Amado, Cândido Portinari, Gustavo Capanema e a enciclopédia viva que foi Otto Maria Carpeaux.

Novais Teixeira terá acompanhado outra revista muito importante nesses anos, Clima, de São Paulo, cujo primeiro número é de Maio de 1941, pouco depois da sua chegada ao país. No segundo, de Julho, «esta revista, que é uma revista de moços, não pode e não quer ficar afastada da mocidade portuguesa», apadrinha claramente António Pedro (1919-66), promovendo uma exposição dele, dedicando-lhe dois artigos e publicando-lhe um poema dedicado a Afonso Lopes Vieira. Novais publicará aí, em 1944, talvez o seu mais surpreendente texto dessa década: «Bodas de Sangue», sobre García Lorca, que atesta também toda a sua atenção à renovação do teatro brasileiro em curso pelo grupo Os Comediantes, de Nelson Rodrigues e Lucio Cardoso.

Os humoristas tinham então, antes do genial Millôr Fernandes, um marco absoluto no Barão de Itararé (1895-1971). Tal como tantas vezes sucedera em Madrid, Novais Teixeira subscreve a primeira lista de aderentes — ao lado de Graciliano Ramos, Dorival Caymmi, Óscar Niemeyer, Vinicius de Moraes — a um jantar de homenagem ao jubileu do Barão a 9 de Junho de 1944.

O drama e intensidade da guerra criava novas possibilidades para o jornalismo, que não é, como alguns pensam, só propaganda e controlo dos média. Novais aproveita a sua experiência espanhola para integrar e depois coordenar uma agência noticiosa pró-Aliados, muito apoiada pelo governo de Rockefeller, parte da Agência Inter-Americana de Publicidade, que contratava jornalistas de esquerda ao mesmo tempo que anunciava produtos de luxo franceses. Por essa via escreve no Diário Carioca ao lado de outros exilados portugueses, muito mais profícuos do que ele. Em finais de 1944, quando o sentido da guerra mundial começa a se tornar favorável aos Aliados, Novais Teixeira surge de repente nas páginas do Diário de Notícias do Rio de Janeiro com dois longos e muito incisivos artigos. O jornalista cultural tornara-se um comentador político acutilante. «O coração político é uma víscera como outra qualquer», escrevera ele, precisamente por essa altura, a propósito de García Lorca.

Actividades políticas, propriamente ditas, de oposição ao regime de Oliveira Salazar não parecem ter sido intensas nesses anos. O pesado e longo engavetamento no Aljube parece tê-lo intimidado (afinal, a ideia terá sido essa!), e veremos que mais tarde, assim que retorna à Europa, Joaquim logo busca saber, em Setembro de 1949, se está ou não autorizado a fixar residência em Portugal, a meu ver apenas um modo subtil de se certificar de que pode visitar Guimarães ou pôr o pé no país sem riscos de tão funesto calibre. Ainda assim, as suas referências são já mais ibéricas que só portuguesas: em 1943 escreve «O fascismo e a Casa de Sabóia» e «A falange espanhola e as suas milícias»; em revistas culturais de prestígio, há colaboração sua sobre Goya e sobre o teatro de García Lorca (acima citada), mas nada de temas portugueses; e é anunciado como tradutor e prefaciador de Manim, trotamundos, um livro de viagens europeias de Manuel Martínez Feduchi, secretário da embaixada espanhola no Rio durante a guerra civil — mas cuja efectiva publicação parece incerta, pois foi-nos impossível localizar uma cópia que seja. Não perderá jamais de vista amigos republicanos espanhóis exilados no México, aí dedicados ao jornalismo, a ponto de lhes oferecer durante anos as suas crónicas parisienses, também replicadas no Porto. Entre eles, o tardiamente consagrado escritor Ramón José Sender (1901-82), redactor da Gaceta Literaria e de El Sol que Rentes de Carvalho confirmou ter sido muito amigo de Novais e seu correspondente prolixo. E podemos ver a mão invisível do velho amigo vimaranense no facto inusitado de O Primeiro de Janeiro ter publicado «Picasso e o Homo hispanicus» (14 de Janeiro de 1965) de Ramón Sender — ou evocações de Unamuno e Pirandello por Ramón Gómez de la Serna, em Janeiro de 1962.

Os sete anos no Rio deram muito a Novais Teixeira, para além desse convívio com outro nível de jornalismo. Basta considerar a chance de voltar a Paris — à época a grande cidade de referência ocidental —, onde antes vivera muito precariamente e sem rumo, como representante e correspondente de dois dos principais jornais do Brasil, e de por via disso retomar uma presença constante na imprensa portuguesa, por replicação dos artigos enviados. Sobretudo, recentrou-o na sua matriz cultural europeia e, mais ainda, agregou ao seu círculo de relações pessoais e profissionais portuguesas e espanholas o de escritores, artistas e diplomatas brasileiros. Num generoso apartamento na Rue des Renaudes, bem à vista do Arc du Triomphe, e mais tarde na Place Adolphe Chérioux, junto à Rue de Vaugirard, Novais torna-se «anfitrião gastronómico» de toda essa gente que também se junta para conversar no Café Mabillon, em Saint-Germain des Près, ou no Atrium, dos Champs Elysées. Círculos em expansão contínua, sobretudo quando, três anos depois de estabelecido em França, logo no início da década de 1950 frequenta o périplo mundano e artístico dos festivais europeus de cinema, como correspondente dos jornais já referidos, mas também a serviço de Cinelândia e Cruzeiro, e tem papel essencial na projecção dos cinemas novos, tanto brasileiro como português, aquele antecedendo este.

Novais Teixeira tornara-se também uma grande referência para o jornalismo português. Aos olhos e ouvidos provincianos do rectângulo, a sua narrativa da guerra civil espanhola a partir do epicentro republicano, a sua carreira jornalística e a posição privilegiada que detinha no Estado de São Paulo, o seu empenho anti-salazarista envolviam-no numa aura heróica, quase mitológica, ao mesmo tempo que lhe permitia recomendar (o que significa: ajudar e até salvar) muita gente dos jornais e não só: é o caso dos «exilados» do lisboeta Diário Ilustrado, entre os quais Victor Cunha Rego (1933-2000), que em 1957 o visita em Paris antes de rumar a São Paulo e depois em 1961 e em 1964-67; e de Adolfo Casais Monteiro e Castro Soromenho. Retoma relações com o casal Vieira da Silva e Szenes, que conhecera no Rio, protege José Rentes de Carvalho e sobretudo António Dacosta — que pintara em 1938-40 uma magnífica Quermesse Espanhola sobre a guerra civil —, acolhe o fotógrafo Fernando Lemos, que exilado em São Paulo volta à Europa com uma bolsa de estudos, frequenta os artistas do grupo KWY, do que resultou uma amizade excepcional com José Escada (1939-80) e Lourdes Castro. Júlio Pomar, Jorge Martins, Manuel Cargaleiro, Eduardo Anahory, Carlos Carneiro (filho de António, 1872-1930), são outros das suas relações parisienses. José-Augusto França, Gérard Castello-Lopes e Nuno Bragança, também.

António Dacosta, pintor e crítico de arte, que começara no Diário Popular de Lisboa e transitara pela mão de Novais para o Estado de S. Paulo, onde de 1955 a 1980 desenvolveu prosa de artista sobre outros artistas (e também escritores) de alta qualidade e erudição embrulhada numa simplicidade enxuta, que nesse domínio tanto se perdeu, dono duma fina ironia brincalhona que prepassa até os seus escritos, foi o mais excepcional companheiro de Novais Teixeira no período parisiense. «Não devemos à França os mais belos anos da nossa vida. O destino não o quis, mas devemos-lhe, sim, o melhor reconforto que poderíamos ter encontrado para os mais amargos», escreverá em Setembro de 1956.

Escreve ocasionalmente sobre arte e literatura. «Paul Éluard, poeta encarcerado», um obituário de Novembro de 1952, é uma obra-prima de inteligência estética e de coragem política. Gabriel García Márquez, então um talentoso repórter de apenas 28 anos, é seu companheiro na cobertura da Cimeira de Genebra de Julho de 1955 e no festival de Veneza, em Setembro seguinte. Bazin (1918-58), Jean de Baroncelli (1914-98), crítico de cinema do Le Monde desde 1953, Gino del Luca (1899-1967), Jean Queval (1913-90), Alain Oulman (1928-90), a socióloga brasileira Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-), e Gilda Cesário Alvim, adida dos serviços culturais da Embaixada do Brasil na capital francesa, foram-nos também indicados como seus amigos parisienses. Bazin acompanharia Novais ao funeral de sua mãe, no Porto, em 1957.

O mundo do cinema ganha progressivo ascendente na atenção e também no reconhecimento de Novais Teixeira. A partir de 1960, dedica-se-lhe por inteiro, abandonando o comentário político. Havia um ambiente extremamente motivador de renovação artística e de debate estético, com uma catadupa de filmes geniais e a emergência do cineclubismo um pouco por toda a parte, além de revistas téoricas e de crítica. O cinema fazia rodar o mundo, a ponto de em 1964 a General Electric comercializar um aparelho estéreo-radiofónico chamado Cannes, numa ilusão ao famoso festival e seu glamouroso desfile de vedetas.

Sem que nada o fizesse prever, Joaquim Novais Teixeira morreu em Paris no início de Novembro de 1972, após um curto internamento hospital. Por delicadeza ou estoicismo, escondera dos amigos a gravidade do seu estado de saúde. Coube ao pintor Júlio Pomar avisar o filho de Novais Teixeira, em Madrid, do trágico desfecho. Foi sepultado, a expensas do Estado de São Paulo e sob os cuidados pessoais de Miriam Dacosta, no cemitério de Bagneux, também última morada de combatentes da segunda guerra mundial e de abundante comunidade judaica aniquilada pela loucura nazi. Até aí, Joaquim Novais Teixeira coincidiu com o século em que viveu, o qual certa vez caracterizou com a frase «A inteligência do Homem é a maior blague do nosso tempo.»

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Este texto é uma versão curta dum relatório de pesquisa apresentado a Guimarães 2013, Capital Europeia da Cultura.