Antonio Rivero Machina

ortegaPoesía, SO6, Suroeste

ANTONIO RIVERO MACHINA

Alem do Tejo

I

ensaio palavras além de mim
como o pescador tenta a fome das crianças
nas brânquias dum espelho sem dique

na terra que é terra porque sabe do mar
vim a deitar as minhas redes

num Tejo com asas de andorinha e voo de gaivota
vim a procurar o meu espaço

na minha pátria de ribeirinho
o caminho próprio

no meu alimento sequioso
o rio apenas

II

as muralhas dizem ao céu quem é
o inimigo

mas as nuvens ainda
não acreditam os nomes
na terra

um aqueduto transmigra o seu rumo
de vidraçaria
                                   o seu pavor
de espelho

o homem nasce sempre ao pé
duma fronteira

ninguém fica
porém

na sua patria

III

são os homens
que não compreendem as alturas
quem moram neste casario

como é o deus dos ateus
quem mora nas cúpulas

também são as crianças
a única resposta possível
à morte

olha forasteiro

são os vizinhos desta altitude
a explicação do mundo

IV

no teu rosto de mármore
fica o conto idoso das cegas celadas
o luar heterodoxo no sorriso dos sentenciados

a sombra fresca de julho e o fogo de cobre
na frágua das palavras proibidas

são teus os mares cercados
dos mapas armilares
atingidos com os nomes
apenas

é o mar sem ondas o que adeja morto
nas tuas mãos

é o teu olhar herdade das estátuas

V

é Deus
provavelmente
um castelo desabitado
cheio do horizonte apenas

na altitude dos caminhos desfeitos
pelos homens vencidos

são os homens
que bêbedos de vértice e pegada
prendem a planura duvidosa

erguem do chão emudecido
os altares de todas as ausencias

IV

de espuma empedrada às noites
é o caminho que leva
ao mar

não há redes que possam lembrar
o segredo das peles nuas
o impossível dançar das âncoras

a saudade da lua recém-saída da água
pelos golfinhos já dormidos
quem sabe onde

longe
ficam os nomes das coisas

o litoral
é a melhor consolação possível