Nuno Corbacho – A angústia do comentador antes do comentário

ortegaNarrativa, SO7, Suroeste

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NUNO CORVACHO

A ANGUSTIA DO COMENTADOR ANTES DO COMENTÁRIO

O comentador estava nervoso. E o principal indício revelava-se nas doze vezes em que tinha verificado o nó da gravata desde que chegara àquela antecâmara. Estava prestes a entrar no programa televisivo onde pontificava semanalmente à atenção venerada do país inteiro e sentia uma impressão de aperto no pescoço. De modo algum ele poderia estar a ser vítima dessa especial forma de intranquilidade que atinge os estreantes, pois tratava-se de um comentador experimentado, a abeirar-se mesmo do centésimo programa e sempre com elevadíssimos níveis de audiência, que estava normalmente seguro das suas opiniões e sabia como contornar questões incómodas de acordo com o seu pessoal e intransmissível método de fuga que, até agora, não o tinha deixado ficar mal. Hoje nem era de prever que a agenda dos assuntos fosse particularmente exigente. De resto, já a tinha combinado durante a tarde com a apresentadora, como era seu hábito, e a semana fora relativamente pacífica. Tudo se conjugava, pois, para que o comentador encarasse mais esta emissão (a número 98, para sermos exactos) com a confiança inabalável de um homem cuja palavra é bebida por todos como um elixir de sabedoria política. Mas, ao contrário, o comentador não se lembrava de, alguma vez desde o início das suas intervenções televisivas, ter estado assim tão inquieto, nem daquele peso no peito que o impedia de respirar fundo, nem daquela necessidade irreprimível de humedecer os lábios e de cruzar e descruzar a perna. Tremia como um colegial na iminência de ser avaliado. E o temível professor desta prova oral imaginária não era a jornalista-inquiridora, por norma remetida a um papel passivo, mas ele próprio, depois de ter decidido emitir a declaração que se preparava para fazer. Era esse momento fulcral que lhe ameaçava os alicerces, era essa revelação planeada, qual monumento de televisão-verdade, que o fazia transpirar.
     As pessoas sabiam, e o comentador não era excepção, que a sua posição dentro do partido do poder tinha mudado sensivelmente nos últimos meses. Depois de ter sido uma das suas vozes mais respeitadas e um eterno candidato a líder, o comentador era agora um dos que mais se afastavam da linha dominante, primando por críticas acérrimas à política governamental. Dizia-se nos bastidores que com amigos destes o Governo já não precisava de inimigos… Mas, para o comentador, o rumo actual do executivo é que era indigno dos valores consubstanciados no ideário do partido. A sua lógica era simples: não fui eu que mudei, não fui eu que traí, o primeiro-ministro é que deitou fora o programa para o qual tinha sido eleito. A incomodidade do Governo com as opiniões cada vez mais corrosivas do comentador era uma evidência mas até agora ninguém se atrevera a exercer qualquer acto de censura. A democracia televisiva funcionava, as audiências mantinham-se nos píncaros e isto sobretudo porque o primeiro-ministro “saía” daquele programa com as orelhas a arder. E não há nada que mais venda em televisão do que vermos aqueles que nos governam pelas ruas da amargura…
      O programa do comentador na Cabo Notícias, logo a seguir ao telejornal de domingo, tinha um “share” invejável e nada do que lá acontecia passava despercebido aos outros comentadores, os muitos que enxameiam o panorama audiovisual. Alguns já iam ao ponto de considerar que o comentador estava no limiar da ruptura e não tarda nada teria de entregar o cartão de militante do partido do Governo. Tudo isto não passava, para já, de conjectura (o próprio comentador não tinha dito uma palavra nesse sentido) mas estava criado um clima, digno de um filme de sustos ao virar da esquina, em que se esperava a qualquer momento que o comentador aproveitasse o seu programa para consumar o corte com a actual maioria. Que dissesse, com todas as letras e inflexões adequadas, que ia deixar de ser militante do Partido Liberal. Ou dessoutro partido em que o primeiro-ministro o transformara.
     O comentador estava, como é óbvio, consciente de tudo isto. Bem assim a jornalista que todas as semanas lhe dava as deixas para ele desenvolver. Como esteio informativo que era da Cabo Notícias, não podia deixar de se aperceber do ambiente reinante entre os fazedores de opinião e das expectativas de quem lá em casa assistia ao programa. Mas parecia haver um acordo tácito entre o comentador e a sua interlocutora, no sentido de ela própria não chamar o assunto à colação. Aliás, fora sempre assim desde que o programa começara, já lá iam quase dois anos – o comentador estava ali para falar dos assuntos políticos da semana, escolhidos e definidos por ele e, em nome da sempre necessária isenção, ninguém compreenderia que o comentador usasse aquela tribuna para impor algum projecto da sua agenda pessoal. Havia que reconhecer, de resto, que ele nunca o fizera, pelo que a apresentadora estava convencida de que não era agora que ele iria quebrar essa regra. Se o fizesse, seria apenas da sua responsabilidade e ela não teria nada a ver com isso. Jamais ela lho perguntaria directamente, mesmo que se sentisse, como agora, a morrer de curiosidade e com uma secreta esperança de o ver a morder o isco.
     É que ultimamente tinham-se avolumado os indícios de que a paciência do comentador estaria a chegar ao fim. O ministro da Presidência, que muitas vezes dizia aquilo que o primeiro-ministro não podia dizer, fora ao ponto de ironizar, a propósito da realização para breve do congresso do principal partido da oposição: “Por este andar ainda veremos qualquer dia o professor Eleutério a candidatar-se à liderança do Partido da Rosa”. Mais sério na invectiva exprimira-se na sua coluna semanal um opinante profissional da área do Governo: “[…] a posição do professor Eleutério é moralmente indefensável e politicamente insustentável”. E ainda na véspera, um comentador de sinal contrário fora curto e grosso na sua conclusão: “É muito natural que o professor Eleutério esteja prestes a dizer: com esta gente, para mim chega!”.
     “Vai ser hoje!” – dizia o comentador para si próprio, enquanto ia buscar ao fundo das suas forças uma expressão resoluta. Todos suspeitavam e havia até quem julgasse ter a certeza mas só ele sabia. Ele era a única pessoa deste mundo que sabia o que ia acontecer nessa noite. E, no seu íntimo, já não havia volta atrás: “Que pensem, que digam o que quiserem, quero lá saber!”.
     Com um ruído surdo, a porta da antecâmara abriu-se e a jornalista-apresentadora entrou, toda sorridente. “Boa noite, professor!”, cumprimentou, enquanto trocavam um aperto de mão rápido mas cordial. “Já tem tudo preparado?” – era a pergunta sacramental, mas ambos estavam fartos de saber que naquele momento, a escassos minutos de o programa ir para o ar, o comentador não podia senão ter “tudo preparado” e qualquer falha de última hora era coisa impensável. A outra pergunta, essa que queimava por dentro os lábios da apresentadora, permaneceu silenciada. Ela esperava para ouvir aquilo que todos estavam à espera de ouvir. Quiçá como desenlace do programa, já depois de feitos os comentários e de forma a ressoar melhor na consciência geral. Se lhe pedissem para adivinhar o instante certo, era isso que ela diria. Mas, claro está, de nada disto ela deu conta ao comentador propriamente dito.
     Antes lhe perguntou, de um modo muito profissional, enquanto brandia uma folha de papel: “Começamos pelo ranking ou pelo ministro?”. “Pelo ranking”, respondeu ele, no mesmo tom, “depois é só seguirmos o guião tal e qual tínhamos combinado, as declarações do ministro em Bruxelas, a história do «marasmo ter de acabar» e, já sabe, a meio do terceiro tema, faz-me então aquela pergunta para eu poder meter a bucha relacionada com o primeiroministro”. “Com certeza”, acenou a apresentadora com a cabeça, ela que já devia ter decorado aquela sequência mil vezes. Já não havia espaço para imprevistos, o único que iria acontecer naquele programa (suspeitava ela e sabia ele) não morava naquele guião. Depois de olhar maquinalmente para os dígitos que marcavam a hora na parede, a jornalista soltou: “Bem, acho que podemos ir…”
     O comentador fez que sim e, primeiro ele e depois ela, penetraram ambos no estúdio onde ia decorrer o programa. Assim, à vista desarmada, era difícil imaginar sítio menos acolhedor – um paralelepípedo sem tecto e completamente despido de mobília, à excepção da mesa de um branco-sujo a que se iriam sentar e das duas câmaras com rodinhas junto das quais se encontravam já os respectivos operadores; a agravar a sensação de estranheza, a parede fronteira estava totalmente pintada de um verde eléctrico, irreal. Ninguém ali diria que, no lugar daquele estendal monocromático, fosse possível às pessoas lá em casa verem aquele fundo tranquilizador de prateleiras com livros que costumava acompanhar as doutas palavras do professor. A estante de tipo nórdico não existia, era apenas um cenário fictício construído pela televisão. Nem o comentador nem a apresentadora gastaram um segundo a contemplar aquela parede berrante que lhes era tão familiar. Em vez disso, o comentador dirigiu um aceno aos “camera-men” e esperou obedientemente que a assistente, vestida com umas utilitárias calças de ganga sem glamour nenhum, lhe pregasse o microfone num recesso já seu conhecido da lapela que o tornava virtualmente invisível.
     “Agora é só esperar” – disse ele para si próprio, e não era muito, atendendo a que o telejornal estava quase a acabar e o programa entraria logo a seguir, sem qualquer transição. O comentador e a apresentadora tinham-se já instalado e estavam sentados um em frente do outro, sem trocarem palavra e aparentemente concentrados a conferir as suas últimas notas – ela a rever as perguntas com a ajuda de uma caneta e ele a escrevinhar uma cábula com a sua ilegível letra de médico mas logo a desenhar linhas e espirais sem nexo enquanto pensava noutra coisa. A contagem decrescente tinha começado… a jornalista sabia que, a ter de tossir ou pigarrear, era agora que o devia fazer; e, para o comentador, os dados estavam lançados, já nada o poderia impedir de dizer o que projectara e, fosse qual fosse o resultado, no final daquele 98º programa a sua vida não mais voltaria a ser o que era. O comentador disfarçou um suspiro com mais um trejeito de ombros típico de quem tem a camisa apertada. “Tenho de perder uns quilos”, pensou, negligentemente.
     Foi neste preciso instante que a jornalista se endireitou ligeiramente na cadeira e olhou fixamente para um ponto qualquer na distância, já com um simulacro de sorriso etiquetado na cara – sinal inequívoco de que o programa estava prestes a começar. “Obrigado, Zé”, agradeceu ela, com a familiaridade habitual, ao “pivot” de serviço, para logo anunciar: “Cá estamos nós para mais uma edição d’Os Comentários do Professor Eleutério… Boa noite, professor”.
     - Boa noite, Beatriz.
     O ranking, o tal ranking a que ambos se referiram, tinha acabado de chegar à redacção do canal de notícias e não era nada lisonjeiro para Portugal. A qualidade dos serviços públicos continuava a ser avaliada de modo muito negativo pelos próprios cidadãos e, o que era pior, desde que o actual governo tinha tomado posse, o país descera nada menos de quatro lugares nesta classificação actualizada de seis em seis meses por uma conhecida instituição europeia. Presentemente, Portugal só tinha atrás de si dois países da periferia da UE, que, nas palavras do professor, “não eram propriamente conhecidos pelos seus elevados índices de prosperidade”. “E a que se deverá esta nossa queda persistente no ranking: são os outros países que melhoram depressa demais e nós não conseguimos acompanhar ou é a crise que cava aqui mais fundo?”, lançou ela a pergunta combinada. “Bem”, aproveitou logo o professor, “tendo em conta que a percepção recessiva existe um pouco por toda a Europa e mesmo assim nós caímos, é porque há receitas a serem aplicadas que fazem os nossos governantes serem mais papistas do que o papa. Quando os outros não progridem tanto é que nós poderíamos recuperar algum atraso. Mas não é nada disso que acontece. De facto, o que temos assistido é à desqualificação dos serviços públicos através de uma política de quanto pior, melhor, porque a tão falada redução de custos apenas levou a um aumento da carga de trabalho per capita e sem qualquer ganho de eficácia. Não é esse o país para onde devemos evoluir em que o trabalho de cada um seja valorizado e o cidadão saia satisfeito”. A inquiridora deixou que lhe aflorasse aos lábios um indefinível sorriso de gioconda enquanto incitava de si para si: “Bravo, professor! Exactamente como ensaiámos!”. E, sub-repticiamente, sentiu vontade de lhe perguntar: “E é a esse partido que promove semelhantes políticas que o professor quer continuar a pertencer?”. Mas resistiu a tempo. As audiências eram óptimas, sempre a subir até, mas convinha não abusar da sorte, espantando a caça.
     Exaurido o assunto do ranking, coisa feita em não menos de cinco minutos, impunha-se pôr a ridículo aquilo que o ministro das Finanças dissera em Bruxelas. Era claramente o tema da semana e sobre ele já se tinham pronunciado as principais vozes dos partidos da oposição. A apresentadora deu a deixa de forma lacónica, pois mais não era preciso para os telespectadores saberem do que se tratava: “E o marasmo, professor?”, e finalizou a pergunta com um risinho. “O marasmo, Beatriz, diz bem”, respondeu ele, gulosamente. “O marasmo, ou melhor, o desnorte é de alguém que não sabe o que faz, de alguém que apenas tem acumulado erros de cálculo e cortes cegos e vai para a Europa dizer que o marasmo tem de acabar. A que marasmo se referia o ministro das Finanças na reunião do Euro- Grupo? Ao marasmo por ele próprio provocado quando as suas medidas de austeridade à outrance apenas têm por consequência a paralisia da actividade económica? E das duas uma: ou o ministro é alheio à sua própria incoerência e estaremos perante alguém inconsciente ou então, as suas declarações estão destinadas a ser substituídas por outras de sinal contrário e nada do que ele disse pode ser levado a sério”.
     - Terá sido talvez um desabafo? – inquiriu cirurgicamente a jornalista, de forma a introduzir o “sound-byte”.
     - Não, não acredito. O ministro não teve foi pejo em surgir perante os seus parceiros europeus como uma farsa de si mesmo.
     Foi mais forte do que ela avançar com uma pergunta fora do guião. Mas, para a jornalista, a conclusão era óbvia e preocupava-a sobretudo a perspectiva de alguém lá em casa mudar de canal se ela não a formulasse: “Acha então que o ministro das Finanças é um ministro remodelável?”. “Bem…”, o comentador vacilou com aquela questão inesperada, mas logo, num movimento muito típico dele, achou guarida num lugar-comum que em nada o comprometia, “a verdade é que este ministro é para o actual governo cada vez menos parte da solução e cada vez mais parte do problema”.
     “Esta Beatriz gosta de atacar de surpresa, mas eu também tenho a minha guardada”, pensou o comentador, enquanto a moderadora introduzia a alínea seguinte: o roteiro de manifestações contra o Governo definido pela Central Sindical de Portugal e que iria arrancar na próxima Primavera com comícios de norte a sul do país. O móbil já era conhecido e não eram esperadas surpresas. Pior tinha sido a gaffe do primeiro-ministro, quando, após tecer um comentário de circunstância sobre a iniciativa, dissera “O Governo, por seu lado, não deixa de trabalhar”, como se as manifestações fossem apenas um pretexto para os cidadãos que nelas participam tirarem uns dias de folga. Não tendo ele grande simpatia pelo movimento sindical, o comentador foi marcando as distâncias, dizendo que por esta altura era já fácil prever aquilo que os dirigentes laborais iriam reclamar, pois se há oposição que quase nunca muda de discurso é a dos sindicatos. E à maré reivindicativa dos que pretendem a queda do Governo segue-se invariavelmente um refluxo de orelhas moucas desse mesmo Governo que, na actual correlação, sabe só poder ser demitido pelo Presidente da República.
     - Mas não nos podemos esquecer que o direito de manifestação está contemplado na Lei Fundamental – aduziu a jornalista, como aperitivo da diatribe sobre o primeiro-ministro.
    - É verdade. E, quanto a isto, há que reconhecer que o primeiro-ministro não esteve bem quando disse que o “Governo não deixa de trabalhar”. Como se os outros estivessem ali apenas para atrapalhar a vida útil do país.
     E aplicou os dois adjectivos que acabara de rabiscar:
     - É infeliz, porque ignora o carácter de um protesto que, goste-se ou não dele, radica numa vontade genuína das pessoas; e é injusto, porque desrespeita o sofrimento real de quem quer que tenha sido prejudicado pelas medidas do Governo. E nós sabemos como a sua quota de popularidade não pára de descer e isso não é por acaso.
     Depois deste rol de más notícias, gaffes e gente insatisfeita, sorvedouro invariável que, semana após semana, parecia atirar o pais para o esgoto, o único motivo de satisfação residia no terceiro lugar alcançado pela selecção portuguesa no campeonato europeu de berlinde. O comentador não se esquecia agora de mencionar esse facto, ele que, no seu dissertar enciclopédico, era capaz de ir dos pináculos da reflexão filosófico-política até ao chão comezinho das competições que não interessavam a ninguém. Numa semana globalmente desinteressante, com pouca coisa a acontecer que merecesse referência, havia espaço e tempo para semelhante nota de rodapé. O professor, nas alturas politicamente menos quentes, tinha um prazer secreto em trazer ao programa estes assuntos de lana caprina e exibir a propósito alguma erudição. “As coisas que ele sabe!... Até que é a primeira vez que Portugal chega ao pódio. Sabias que havia um torneio de berlinde em que participam todos os países da Europa?”, terá dito lá em casa o telespectador para quem o acompanhasse. E um sorriso diáfano, oscilando entre a admiração e o sarcasmo, brotaria dos seus lábios. A ninguém ocorreu que o comentador utilizara, afinal, aquele informe como estratégia de descompressão para aliviar a tensão em que se encontrava e alisar o terreno para a bomba que aí vinha.
     Faltariam ainda uns cinco minutos para acabar o programa quando aquilo aconteceu. De repente o comentador calou-se, deixando uma frase a meio. Não era nada de importante, era qualquer coisa relacionada com a reconfiguração do diâmetro dos berlindes exigida por uma directiva europeia, e o que não pôde ser completado por ele as pessoas fizeram-no lá em casa, isto no caso de não se terem distraído entretanto. Mais invulgar foi porém a forma como o professor baixou os olhos para o tampo da mesa, pigarreou duas ou três vezes e chegou mesmo a corar. Isto era inédito em televisão, era a primeira vez que alguém via o professor, sempre tão torrencial no discurso, ter um momento de hesitação. Era sinal de que algo de muito importante iria ali ser dito e milhares de olhos por esse país fora pregaram-se à televisão em expectativa.
     - Bem, há uma declaração importante que eu (e desapertou muito ligeiramente o nó da gravata) já ando há algum tempo para fazer e… (tossicou sem finalidade) não queria que este programa terminasse sem… (e, em lugar da palavra que viria, engoliu em seco).
     Um gongo próprio de um duelo de artes marciais soou dentro da cabeça da apresentadora: “Querem ver que é desta que o professor Eleutério vai dizer, em directo e no meu programa, que abandona o Partido Liberal?”. E subitamente, com a perspectiva das audiências a subirem, sentiu-se presa de uma enorme excitação, que lhe arrepiava a raiz dos cabelos e punha o coração a bater mais depressa. O comentador continuou, com a voz meio embargada:
     - Eu já faço estes comentários aqui no canal há quase dois anos e em todos os momentos procurei sempre ser fiel à minha consciência. Há alturas na vida em que deixa de ser possível prolongar certo tipo de situações sem nos confrontarmos com elas…
     (embalada, a jornalista estava já a agradecer-lhe um milhão de vezes pela possibilidade de tocar o nirvana de um “share” nunca antes visto)
     (“é, esticou a corda e é agora que ela se vai partir”)
     Dizem que estamos numa era em que a televisão mostra tudo e como tal não podemos esconder nada. Se é verdade isso, eu então podia dizer que estou agora aqui consigo a falar de política, de economia, de assuntos sérios e graves mas, aqui entre nós que tanta gente nos ouve, por minha vontade estaríamos antes a conversar trivialidades e a gracejar um com o outro sobre qualquer delicioso assunto que só nós compreendêssemos.
     (a jornalista não mudou de expressão mas só ela sabia o desconcerto que a dominava)
     É verdade, Beatriz, você é a entrevistadora e eu sou o comentador. Mas também já não me chega estar consigo apenas no dia do programa. Passo a semana cheio de saudades suas, a contar os dias até voltar a ver o seu sorriso a dizer-me olá, professor. Estou apaixonado por si e, nesta época de permanente exposição, não me importo que esse facto seja tornado público. Eu amo-a, Beatriz, que se lixe que o país inteiro fique a saber. Eu podia agora oferecer-lhe uma flor mas hoje é domingo e a florista lá do bairro está fechada.
     Interdito com o que fora capaz de declarar, de um só fôlego e ali mesmo em frente às câmaras, o comentador parou abruptamente de falar e fez-se um silêncio incómodo. Depois de uma confissão destas, não havia mais nada para dizer – as discórdias inter pares, a política, o futuro do país, tudo fora ofuscado pelo mesmo clarão inimaginável. Lá em casa, as pessoas deviam estar aturdidas e a não saberem o que pensar. Podia o professor ter anunciado a sua despedida do partido deixando cair uma lágrima furtiva ou até com insultos e impropérios mas para aquilo é que ninguém estava preparado.
     Muito menos a apresentadora, que esteve alguns segundos sem respirar e não chegou a conseguir recompor-se durante o programa. Abriu a boca uma, duas, três vezes mas não lhe saiu qualquer som. Estava fora de questão responder o que quer que fosse a tão inusitada declaração. Lembrando-se de repente que o programa estava para acabar, a jornalista agarrou-se a essa tábua de salvação, e colocando na vertical como se de um maço se tratasse a única folha de papel que tinha à frente, tartamudeou, em jeito de despedida, com a sua fachada de normalidade a derreter-se a cada acidente no discurso: “E fela ao chim… perdão, e chega assim ao fim mais um amor… um amor de programa… peço desculpa, um programa de amor … não, o programa do comentamor… do comentador professor Eleutério”. A imagem afastou-se acto contínuo dos ecrãs e por isso poucos lá em casa se aperceberam da apresentadora a romper num riso desengonçado e incontrolável.


      Que não nos admiremos desta declaração de amor em praça pública, pois a vida da jornalista de televisão Beatriz Pessegueiro não é segredo para ninguém e é caso para dizer que já quase tudo lhe aconteceu. Ao contrário do que sucede com a maioria dos seus confrades, a “pivot” da Cabo Notícias é menos conhecida pelos artigos que ela própria escreve do que pelas notícias que sobre si outros redigem nas revistas das chamadas celebridades. Ela já era conhecida pelo seu estilo sóbrio a apresentar o telejornal e pela sua argúcia de entrevistadora, bem como, porque não dizê-lo, pelos seus dotes físicos mas ultimamente andou nas bocas do mundo por causa do seu tumultuoso processo de divórcio. Depois de se ter casado há uma dezena de anos com um professor universitário bastante mediático e de tal enlace ter sido exaustivamente coberto pela imprensa cor-de-rosa com o beato consentimento de ambos, eis que a união se desfez com estrondo, acompanhada de um rol de páginas cheias de letras gordas e fotos à sorrelfa esfregadas em lama e ressentimento. Por aí se percebia que o ex-consorte, outrora a regurgitar de fleuma e prestígio intelectual, era afinal um maníaco do controlo cujo verbo, quando atiçado, estava sempre pronto a resvalar para a chinela da calúnia e do mau gosto.
     No dia em que o professor Eleutério Silva avançou em pleno ar com a declaração que se tornou célebre, Beatriz Pessegueiro estava já a procurar juntar os cacos de uma vida irremediavelmente devassada. O comentador, por seu turno, é apenas presença habitual nas páginas de política dos jornais e nos textos de opinião que outros assinam, pelo que não é seu costume aparecer nas notícias de socialite. Durante o período em que a apresentadora viveu o seu malfadado casamento, eivado cá para fora de imagens paradisíacas a cada temporada de férias na neve ou de cada vez que lhes nascia um filho, ter-se-ão contado pelos dedos de uma mão as vezes em que o professor foi referido nalguma daquelas revistas. A sua vida privada é exactamente isso, privada, e o seu protagonismo televisivo não chegou felizmente a dar pretexto à violação dessa regra. Mas aqueles que o conhecem, incluindo gente ligada à Cabo Notícias, sabiam que o comentador, divorciado há vinte anos da única mulher com quem casara, vivia uma relação on-off com a sua secretária, uma exuberante loira com o dobro da sua altura, que ligava sempre que ambos se deslocavam ao estrangeiro (e isso acontecia com alguma frequência) e desligava no regresso à pátria. Nada constava que esta rotina (baseada, afinal, na falta de rotina) estivesse para ser alterada. Por isso foi enorme a surpresa de todos quando o professor anunciou urbi et orbi e, pasme-se, também em directo que Beatriz Pessegueiro era a eleita do seu coração.
     E agora, que já passou um mês sobre esse facto notável, os dois aparecem juntos e felizes na capa de um magazine televisivo de grande audiência e por baixo pode ler-se o seguinte título, em maiúsculas cor de sangue: “Beatriz Pessegueiro reencontrou o amor”. Menos risonho, verdade seja dita, foi o resultado para a Cabo Notícias, que acabou por ficar sem a rubrica do professor Eleutério. A administração do canal reconheceu que era impossível preservar a isenção e a objectividade enquanto aqueles dois, em quem a seta de Cupido acabara de ser espetada, continuassem a contracenar. Beatriz Pessegueiro mantém-se, bem entendido, na Cabo Notícias, onde continua a notabilizar-se pelas suas entrevistas de cariz político, mas Eleutério Silva mudou-se para a concorrência, protagonizando agora uma rubrica de comentário político no canal Portugal News, em tudo idêntica àquela que já tivera na Cabo Notícias. Com a diferença de que desta vez é um moderador que introduz os temas mas, no resto, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, até isso de ainda hoje estarem à espera que o comentador se lembre de anunciar a sua desvinculação do Partido Liberal. Como diz o outro, bem podem esperar sentados, pois ainda ontem o comentador confidenciou a um conhecido seu: “Jamais eu darei essa alegria àqueles que me querem ver pelas costas”.