Eduardo Brito – O Gelo Imperfeito

ortegaNarrativa, SO7, Suroeste

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EDUARDO BRITO

O GELO IMPERFEITO

A Primavera a chegar

     Com a chegada do bom tempo, regressaram as moscas. Vi uma ou outra a esvoaçar sobre o escritório, procurei causas que justificassem a sua presença, mas nada. Era apenas a Primavera a chegar, o pólen a esvoaçar, a respiração chiante. Depois, a noite cheirava já a Estio, as pessoas suavam e havia quem oferecesse porrada com facilidade. Ela falava de uma pulsão qualquer, teorizava demais para a circunstância. De quando em vez, uma rajada de vento arrefecia tudo, num repente, como uma lâmina no corpo num assalto. Ele dizia que era do rio ali perto, atrás das casas, que não demoraria até o vento passar. Os bêbedos estavam muito bêbedos e houve uma altura em que um deles se preparava para dizer qualquer coisa, esqueceu-se, deixou de falar e ficou de olhos mortos nos carros que passavam. E no fim, os passos levaram os corpos a casa, exaustos, e ainda houve tempo de cheirar o hálito da mulher que dormia e que nessa noite não lavou os dentes.

Outra vez o vento

  Onde os círculos se fecham: na primeira vez que desejamos a estação que se segue, ao sentirmos o ar fresco secar o corpo transpirado. Passa um ano e a memória do tempo regressa, então: dia cor de cinza, nuvens baixas, a trovoada que se adivinha mas que acaba por não chegar. Também as cidades têm ciclos reconfortantes, escreveu M. a propósito de uma árvore em flor, de um círculo que se abre. Repetes a frase baixinho duas, três vezes, enquanto caminhas. Também as cidades têm ciclos reconfortantes: árvores no parque, outra vez o vento, depois casas antigas numa rua estreita que custa a subir. No Verão as flores vão queimar, e no final acabamos sempre por perder.

Ritual

     Acreditava que a repetição dos gestos poderia conduzir a algum lugar: permitir uma melhor compreensão do papel de cada um no seu tempo no mundo, por exemplo. Bastaria repetir, esperar e insistir: um ritual teria que ir dar a algum lado. Por isso subia a calçada todos os dias da mesma forma, pelo passeio da direita, primeiro, atravessando para o outro lado ao passar a farmácia, de modo a poder entrar em diagonal na night shopping do indiano que vendia, por dois euros sem meter conversa, um litro de cerveja que beberia gelada em casa, à espera dessa revelação cuja possível chegada era sempre interrompida pelo sono. No processo de adormecimento, por mais de uma vez pensou que iria acordar sem passado, livre de toda a culpa, ser apenas ele, a sua respiração e o mundo à espera.

St Margaret’s Hope

    Cada vez que me falares em ir com calma, em fazer depois, lembrarei a pequena aldeia de St Margaret’s Hope, virada a norte na margem da baía, com as suas casas quase iguais e o frio a atravessar os intervalos entre cada uma delas, pequenas vielas que ligam as duas ruas, Front Road, Back Road. Lembrarei o barulho mínimo daquele lugar, feito do ranger de cordas e madeiras no pequeno porto e do ocasional good morning vociferado por alguém que passa. Recordarei os correios minúsculos, mais parecidos com um quiosque, o único pub chamado The Murray Arms, o centro de saúde, a igreja e, numa cota um pouco mais alta, a escola já sem crianças. E recordarei também uma inscrição numa pedra tumular no cemitério: we do all fade as a leaf. Cada vez que me falares em adiar, lembrarei como o tempo passa em St Margaret’s Hope, distante da cronologia da pressa no resto do mundo. Lembrarei também o que terá feito os homens estabelecerem-se naquele lugar: talvez o mesmo que me fez querer ali ficar, à espera que chegasse depois.

Praga

    Em Junho, apareceu em casa uma praga de traças. Revistámos tudo e não lhe encontrámos a origem. Eu disse que talvez viessem dos cereais. Tu discordaste, talvez de um modo demasiado assertivo para a importância da questão. Na noite em que jantámos apenas flocos de aveia, eu juro que vi uma traça a sair da tua boca enquanto dormias.

Quietude

    Entretanto, acendeu-se o primeiro candeeiro e os mosquitos apareceram. Coisa intensa, coisa intensa. Depois pensei: tenho que fazer-me presente, amar os amigos, lembrar as perdas mais importantes, refinar a caligrafia. Chegará um tempo em que se nos iguala a expressão do rosto e desacelera o gesto, o ritmo e a palavra. A altura em que a sublimação nos toma, numa unidade sem forma: o momento em que dizemos podia morrer. E então volta o vento, o vento nas árvores: o barulhar primeiro torna-se o único ruído nesta espera.

Sul

    Não se queixava da dor no pé que lhe trepava pelo tornozelo e se adensava com o passar das horas, vagando-lhe o andar pelas tardes. Por isso deixava-se ficar na varanda após o almoço, entre o calor e os figos, a beber vinho branco, até cair no torpor da meia garrafa. Numa dessas alturas disse-me: “sonho que estou no meio de toda esta alvura e de um momento para o outro desfaço-me em cal”.

Setembro

    De forma discreta, amarelecem folhas da árvore da esquina da avenida. Repete-se tudo, como um refrão: chegará o tempo em que avermelham, prenunciado pelo cheiro da terra que se desune pela noite, à saída da cidade para norte. Reabre então o café onde vão os homens que só falam de futebol. Na inspiração sente-se o primeiro frio: algo corta outra vez. Convoca-se então o retomar de um ciclo sem regresso: hão-de comprar-se cadernos e canetas, haverá marmelada a fazer-se na cozinha.

White Noise

    Há uma série de ruídos que ocupam a noite: o motor de um velho frigorífico, a ventoinha de um projector, o tinir de um circuito eléctrico. Todos se afundam num falso silêncio ao passar um avião que faz a casa tremer e que, quando se afasta, deixa ouvir uma ambulância ao longe, a desaparecer para lá do parque. É o instante anterior ao regresso deste silêncio alvo, ali mesmo quando por fim se apaga a lucidez do pensamento: uma história que não pode acabar, porque justifica a própria espécie; a angústia de nunca termos recuperado os velhos verões; uma actriz que se vê filmada trinta anos antes e pensa “o que eu podia ter feito aqui”. 

Give me more of everything*

    Há anos, frágil como o gelo imperfeito de um lago prestes a atravessar, encontrei uma mulher que me disse: “dar-te-ei uma bondade sem condições, como quem nada pergunta ou exige às estações do ano”; só depois fiquei a saber que era actriz.

Hotel Rimbaud

    Endiabrados pela aceleração da noite, subimos as escadas até ao quarto barato, e, continuando a conversa, exercemos o nosso direito à autodestruição. Ali estávamos, portanto, pela euforia; talvez fosse a morte a chamar, talvez em nós morasse já a sua bactéria, ainda que segunda-feira estivéssemos destinados ao regresso. Da janela avistámos o quarteirão de Serai, onde todas as línguas do mundo são faladas desde há milhares de anos, onde conhecendo a pessoa certa até um coração é possível negociar. Pensei então em algo inominado, ao qual tu e eu pertenceríamos juntos, sob um céu amarelo sem sol, num halo que não desapareceria com o passar das horas. Por ali ficámos noite fora, infligindo pequenos golpes um ao outro, revelando erros e falhas que sabíamos de tempos antigos, tentando recordar palavras exactas, ainda que o que quiséssemos mesmo fosse dizer que temíamos acabar a vida sem companhia.

* O título “Give Me More of Everything” é retirado de uma canção de Stina Nordenstam. O quarteirão de Serai fica na cidade de Hav, tal como descrita por
Jan Morris no livro homónimo.