Abel Neves – O Ronhoso

ortegaNarrativa, SO7, Suroeste

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ABEL EVES

O RONHOSO /  SEXO NA BANHEIRA

O RONHOSO

Abafa-se. O cortinado há muito que ganhou a cor da poeira que entra pela janela e costuma abanar como abanam todos os cortinados finos postos a temperar a luz e o ar entre as casas e a rua. A sala está apetrechada com uma pequena mesa de cozinha com tampo vermelho de fórmica, duas cadeiras a condizer, um lava-loiças com um prato principal e três de sobremesa, uma xícara, talheres, copos, um velho frigorífico, dois armários castanhos repintados, um relógio chinês e uma estreita cama mais ou menos mal composta, debaixo da qual se pode ver, quase inteiramente, um par de sapatos pretos de atacadores. Além de cozinha, a sala serve também de quarto. Há duas portas, uma para a rua e a outra para pouco mais de dois metros quadrados de casa de banho com um tecto que ganhou a cor do enxofre a contrastar entre alguns azulejos com o anil dos faraós. O homem, que veste uma camiseta branca de alças, tem a cabeça inclinada sobre o prato, e gotas deslizam-lhe da testa, ensopando as sobrancelhas e pingando na canja com asas e miúdos de galináceo. Sorve o líquido e nem se dá conta do chuveirinho de suor. É a canícula. A custo, muito a custo, foi à farmácia para comprar o medicamento que acalma as turbulências no estômago e disseram-lhe que o preço tinha crescido. Também há bacalhau desse, crescido, mais caro. Voltou para casa de mãos a abanar e a pensar que não podemos estar doentes, não podemos, não podemos. É a terceira vez que não compra os fármacos, e desiste. Não voltará mais à farmácia. Pensando nisso vai eclodindo mais acidez no bucho e piora, o homem tem pioras. País de merda, pensa. Eles pagam bem àqueles que conseguem pôr os desgraçados na ordem. Os novos gestores são administradores de escravos e de que me serve estar a comer este caldo se vou rebentar pelas costuras, ainda por cima com um calor destes que faz estalar até o casco dos navios? Vou comer a canja e deixar que isto rebente. Alguém há-de dar pela minha falta, talvez os da farmácia, os outros não sei, os amigos e conhecidos nem sempre se dão conta, estão na vida deles e nem se lembram que um gajo está com o bucho nas últimas e querem lá saber se a canja começa a ficar com uma aguada de sangue. Pousa a colher depois de a morder para conseguir amordaçar sabe-se lá que grito e senta-se no sofá virado para a janela, lá no alto. Quase enterrado já está, ali, na sua cave da praceta com jardim infantil, e pensar que a ganância de uns quantos o impede de estancar a revolta nas entranhas aumenta-lhe o desgosto e, claro, a revolta nas entranhas. Só quem tem dores é que sabe. Enrola os braços na barriga, dobra-se e tomba de joelhos no soalho. Sobe o olhar para a janela e o cortinado dança. É isso, dança. Muitas vezes, em miúdo, diziam-lhe que era isto e mais aquilo, que o que ele tinha era ronha, um ronhoso era o que ele era. Nunca foi de fazer as coisas com pressa, mesmo quando nos seus trabalhos da recolha do lixo se via obrigado a correr à frente dos caixotes, ainda no tempo em que não havia luvas nem elevadores atrás dos camiões e a força dos braços é que comandava. Andar ao lixo é um trabalho que se vê. Há trabalhos que não se vêem, que ficam ocultos para sempre. Antes de vir para a cidade, ainda se meteu nas minas, mas muito depressa começou a tossir mais do que devia e raspou-se dali para fora, do ferro para o lixo, do sul para a capital. Agora, está curvado e a sua aflição já não está em si, mas na vida e por isso, retardando a agonia, levanta-se, empurra o sofá contra a parede debaixo da janela gradeada por fora, sobe para o assento, afasta a cortina e mete uma mão para a calçada. Os que passam vêem-no lá em baixo, de mão estendida. Nenhum amigo está próximo e os que não o conhecem não o compreendem ou não querem compreender. A vida está feita assim, mais ou menos assim, e ele deixa-se ir, devagar, a mão recolhendo-se como flor de cerejeira que espera o vento.

SEXO NA BANHEIRA

Entrou com o sexo na banheira. O problema foi tirá-lo. Enfiou-se no ralo. A mania de entrar na banheira com o sexo. Podia tê-lo posto na saboneteira, ficaria bem, arranjadinho, sossegado. O que valeu foi que tinha paciência e não gritou. Suspirou. A mulher veio a correr e também entrou com o sexo, nem era costume, mas como ia a correr entrou sem se lembrar que estava com o sexo. Os dois, então, ficaram a olhar um para o outro, ela com o sexo molhado e a olhar para ele que tinha o sexo no ralo. Ficaram uma hora, em paciência, com os sexos no estado em que estavam e no fim da hora a mulher ajudou o homem a tirar o sexo do ralo. Ele gostou, e ela também. O sexo era uma flor tardia, e parecia querer falar, dizer coisas, e ele guardou-o por instantes do olhar dela, mas via-se, o sexo dele via-se tanto que a mulher desviou os olhos para só poder ver o seu que estava em baixo, dentro da água. A flor do homem estava ali a dar sombra à banheira e ele, orgulhoso, pousou a mão no sexo da mulher, e era água, e ele quis dizer qualquer coisa que pudesse traduzir à mulher que se ela se voltasse talvez o céu descesse à banheira. Ela voltou-se, ele sorriu e a flor fez-se ao corpo. Desceu então o céu à banheira. Quando saíram da tina, os dois levavam os sexos, cada um no seu lugar. Viram a água correr, a ir pelo ralo. As toalhas eram grandes e brancas, de algodão egípcio. Foram secar-se cada um para seu lado, ela a sul e ele sem saber. Depois, saíram para jantar e foram ao cinema. Entre uma cena escura e uma clara, ela pôs-lhe a mão em cima da flor.