Patricia Baltazar

ortegaPoesía, SO7, Suroeste

PATRICIA BALTAZAR

Abrir as mãos ao lume graças a ter de pensar no Inferno.

Guardar a distância.
Manter a maré sempre baixa.
Guardar o peito da temperatura de um outro corpo.

Fechar os olhos aos olhares. — «Esos ojos detrás del cristal
son dos negros cautivos cruzando el mar».
Fechar tudo.
Guardar as mãos do toque perigoso.

Abrir mão de um amor e entregá-lo ao lupanar. — Perder a ilusão e a vida.

Escudo em riste.
Proteger o amor da morte, afinal.

Pelo menos, com a certeza do fogo,
ou dormimos ou pensamos. —
E eu já não estou aqui.

***

Eu tenho uma maravilha — flor na parede, erva no chão.

Eterno ruído interior. Sempre extremo. Sempre companhia.

Atinjo as cores pelos flancos para ser aceite por elas — sapatos alados.
Nada me arranca o arco-íris. Nada me demove as ancas do Sul.

No fim, a lucidez de tudo.
(Ele morreu de coragem. Foi embora sabendo tudo. Sem lama. Sem
lodo. Limpo.
Cavaleiro.)
Ah, eu tenho uma maravilha! Tenho a percepção difícil das nuvens, as tréguas. O parto.
Vapor d’água. Líquidos.

De beleza em beleza, eu voo. Eu sumo. Eu sobro. Desapareço.

Porém,
a casa.

***

Ouve-me:
Estivemos muito perto do fogo para nos tornarmos ruínas agora. Soubemos exactamente onde deixar os pés, esses alucinados mestres, antes que aquela música nos deixasse ao abandono.

Deixámos que o Oceano nos arrefecesse antes de nos tornarmos no sal do transtorno.

Não foi nada. Já sabíamos. Sabíamos onde pousar o corpo, onde deixar o soro das lágrimas antes de partirmos.

Havia em nós barbitúricos elementos nos olhares intermitentes. As antevisões. As premonições. As cartas. Já sabíamos.

Ouve-me um pouco ainda:

Cair. Não cair. Descer devagar. Descer agora os dedos pelas costas de quem amas. Já sabíamos.
Ainda há o arrasto, o lastro. É necessário.
Estivemos demasiado perto do fogo para ouvir de novo aquela música e deixarmos que nos transforme noutra vida.

I can forgive my injuries. E espero-te feliz.

***

Vai acontecer.

Precisava não ouvir a minha voz.
Precisava não assistir ao que acontece à volta.
Não posso sonhar todas as noites.
Mas lá vem, Marinheiro que atormenta, que nem sei onde fica.

São destroços. Podridão dentro. Raiva. Este mal-estar ou estar por um fino fio. Uma nota agudíssima numa partitura mal escrita e dentro do ouvido.

Devia ter sido uma baleia maior.

Vai acontecer, eu sei.

Continuo a viver num castelo sem Dragão. Ou, perspectivando, deveria ser eu o Dragão, mas o castelo é de areia e o meu fogo não importa. Nunca será o castelo a ruir: serei eu.  
Sem fogo, sem pele, sem perdão.

Pedir água para gritar. Um grito com afago.
Raiva na popa. Culpa no arpão.
Um pequeno ponto de mim em mim.

Crisálida de merda. Porca. Feia.
Nem sangue, nem plasma, nem soro.
Deves matar-te.
Ensaboa-te. — Ninguém a segurar.

As horas. As ondas. A multidão. Mrs. Dalloway.
Pai, vai mesmo acontecer.
Estou encolhida. Água do mar mais sério. Ficar lá.

O copo na frente, ainda. «Ah, é muito difícil! Muito difícil!» — Não tenho amanho. Sou
da preguiça.
Não quero a outra vida de novo.

Olhar muito direita para o chão e ficar assim. Pensar que a borboleta que ainda sou pariu outra para sempre. — Difícil enquadrar. Pensar só que os padrões não constituem uma aflição.
Olhar o chão direitíssima.

Vai acontecer. Diz que sim. Diz que vai.

***

Houve quem lhe dissesse que era tão bom para os dois, era ainda muito menina. Gostava de ver o Topo Giggio.

E era bom. Não tem culpa. Nem o Tweetie, que deixou que as cuecas lhe descessem.

Ficou tudo naquela ilha e na ilha que agora é. A luz do farol era pontual na janela. Nada errado.

Não sabe se nunca mais cresceu ou se cresceu demais só num dia. Sabe que não doeu.

Já adulta, bateram-lhe, insultaram-na, disseram coisas, odiaram-na, desejaram-na morta.
Pragas. Traíram-na. Desiludiram-na.

Ela não esteve à altura. Errou. Desiludiu também. Mas nunca fingiu ser deus.

Matam-na as heras de mau corte, os maus instintos, os homens que brincam com a paz. Matam-na os minutos arrancados à vida por lesmas, idiotices ordinárias para quem ande atento em qualquer rua.

Importa-lhe agora a relatividade da distância entre os que se amam, e a proximidade dos que têm mãos e olhos e nada para não amar.

Ficou lavada dos outros. Falta lavar-se dela, que está porca.