Antonio Carlos Cortez – Horizonte e regresso

ortegaPoesía, SO7, Suroeste

ANTONIO CARLOS CORTEZ

Horizonte e regresso

L’expression de la Poèsie n’admet ni la
règle ni la licence, et un poète n’est jamais
libre que de la liberté de la Poèsie.
René Menard

I

É noite A cidade morre um pouco mais
na carne que foi sua e regressam os delicados
animais por entre as dúbias figuras
rasgando a pele dos corpos que flutuam
são um rio esquecido já por entre a espuma
Destes dias finais que não são nossos
havemos de dizer que são de guerra
quanto nas palavras se esconde
Noite imersa em bruma porque foge
dos ossos a certeza que houve carne
Já uma incerta mão desnuda traz
à boca restos de rastos e de dúvidas
(Eu estive algures aqui há dez mil anos
e nos meus olhos havia uma outra luz
não estes rápidos corcéis de luzes cegas
Noite europeia e portuguesa é certo isto
A cidade um pouco mais que morre
e eu desisto de escrever qualquer poema
ou rima ou solução ou mesmo nada
(parece-me que a voz agora às vezes falha)

II

uma dor que tinge de tremor este silêncio
É isso a poesia quando surge Emerge
como quem me afunda ou me suspende
(uma necessária dor que me escreve
e escrevo nela o que me lembra
talvez a luz mais livre a juventude)
uma urgente forma de dizer Quero ficar aqui
talvez p’ra sempre e ter de setembro
o gosto que foi nosso e não trazer nas mãos
esse abutre que num poema antigo
(porque era dor) era perda ou solidão
ou era uísque

III

Com Alfonso Costafreda, in memoriam

Era um poeta só
Era uma fala Li a sua obra
(ficou-me na garganta um nó
que não sei desatar)

... nenhuma palavra afinal me sobra...
(como se pode escrever
Como se pode matar?)