Ana Luisa Amaral

ortegaPoesía, SO7, Suroeste

ANA LUISA AMARAL

BIFRONTE CONDIÇÃO

Luxo de ter olhar, de ver desta janela,
elegante e atento, aquele gato matizado
a branco e a canela, luxo de um prato doce
e confortante, luxo do tempo a desdobrar-
-se, e de sentir calor junto a janeiro,
e a cada movimento

Do outro lado, ao fundo da janela,
o lixo examinado atentamente por homem
rente ao frio, tudo a tornar-se frio dentro das coisas,
os movimentos crispados e cinzentos,
de como é curto o tempo, ou de como
as palavras encurtam
o dizer

O luxo de estar quente:
um luxo absurdo, mas luxo verdadeiro
ao lado do janeiro: o mês bifronte,
feito de duas faces, como nós,
desatentos, fingidos, incultos habitantes
deste planeta que,

visto de um outro lado, se ele houver,
por olhos outros, se eles existirem,
há-de parecer assim: bifronte:

de um lado, a mansidão de amar e proteger,
na outra face, a outra condição de olhar sem ver,
por isso sem indulto, nem cósmica razão
que nos redima

ABANDONOS

Deixei um livro
num banco de jardim:
um despropósito

Mas não foi por acaso
que lá deixei o livro, embora o sol estivesse quase
a pôr-se, e o mar que não se via do jardim
brilhasse mais

Porque a terra, de facto, era terra interior,
e não havia mar, mas só planície,
e à minha frente: um tempo de sorriso
a desenhar-se em lume,
e o mar que não se via (como dizia atrás)
era um caso tão sério, e ao mesmo tempo
de uma tal leveza, que o livro:
só ideia

Essa sim, por acaso, surgida num comboio
e nem sequer foi minha, mas de alguém
que muito gentilmente ma cedeu,
e criticando os tempos, mais tornados
que ventos, pouco livres

E ela surgiu, gratuita,
pura ideia,
dizendo que estes tempos exigiam assim:
um livro abandonado
num banco de jardim

E assim se fez,
entre o comboio cruzando este papel
impróprio para livro,
e o tempo do sorriso

(que aqui, nem de propósito,
existe mesmo, juro, e o lume de que falo mais acima,
o mar que não se vê, nem com mais nada rima,
e o banco de jardim,
onde desejo ter deixado o livro,
mas só se avista no poema, e livre,
horizontal
daqui)

PEQUENÍSSIMA REVISITAÇÃO A DESEJAR-SE

Enquanto o peixe grelha
descuidado:
o aroma dourado
do incenso a romper
pela cozinha

Vem da mesa na sala,
onde igual a vulcão,
um cone colorido
sustenta a haste fina
do incenso

E eu fazendo de mago,
de Menina,
de Mãe e de pastor,
tudo em mesma figura
no fervor da cozinha

Em fogo lento,
cumpre-se a Palavra
e uma batata só
falta-me a mirra
e o ouro

Mas vede como, esquivo,
o peixe se queimou,
e o verso
em combustão
ficou desfeito!

Ah saber acender
um cenário
perfeito:
além de incenso,
a outra especiaria,

algum tesouro,
a erupção dourada,
o preclaro milagre
de um novo peixe,
aqui

E não este puré
sem cântico        nem luzes
nem noites estreladas –
matéria em que a batata        esquecida
se tornou

O ASTRÁGALO: IMPRESSÕES

A impressão digital de uma estrela
é mais que um fio de luz:
fala de um cálcio igual
ao que irá preservar a memória do astrágalo,
esse pequeno osso
com nome de universo
vizinho ao calcanhar

Comum ele também a espécies várias,
a nossa, ou a de pássaro ou sapo
que em terra e água imprimem os seus passos,
um lentíssimo voo pelo espaço
a ser sonhado – nosso

Como a estrela que morre, agonizante,
e é somente uma outra dimensão da dor,
ângulo outro em perda,
ignorante ela mesma do profundo dever
de que outra estrela nasça:
responsabilidade sem contrato, acordo tácito
do fogo transportado

Tal como o sapo, o pássaro,
óvulo, ovo, ou larva, lançado ao rio
num cesto de matéria, o vime feito trança,
se pressente imortal,
quando criança

Mas a espreitá-lo o ponto frágil da fractura igual:
desabrigado astrágalo,
à mercê do futuro feito flecha,
deixando digital nova impressão,
grão de cálcio e de mundo, ali suspenso

Além do fio de luz que nos condena,
enquanto nos transporta além do tempo
para outras guerras, outra paz

quem sabe

CARTA A LÍDIA
SOBRE A POESIA QUE SE ACHOU PERDIDA

Disse-te ontem à noite
que a perdi

E não se estava à beira-rio,
nem eu te convidei a sentares-te comigo:

era num restaurante,
havia muita gente
e algum rasto finíssimo de frio

Tu disseste-me ‘escuta’,
querendo dizer-me ‘sente’

Hoje tentei de novo ouvir
tão hesitante como deve ser
os assuntos escuros do teatro
onde moramos todos

mas onde tantos,
nem sequer por instantes,
recebem foco ínfimo de luz

E o rio tornou-se nada, Lídia,
pois ela veio: indócil, mergulhante,
tímida de criança
a puxar-me insistente pela dobra da blusa
obra mais quente do que o meu café

Em confidência, escuta:
o que te disse ontem à noite, vejo agora,
era um pouco mentira,
uma provocação a ver se ela me achava,
um exorcismo quase

Obrigada por me lembrares, amiga,
que não é sossegadamente
que a vida passa –

MEDITERRÂNEO

os mares de Homero deixaram
de trazer, esbeltas, as suas naves

em nome dos sem nome, continua.
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua. por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
ao fundo do deserto, diz-se gotas de
sangue e grãos de areia, a esfinge
no deserto, continua. no verdadeiro
nome do espesso fluido que se diz
vital, em toneladas certas, continua.

os divinos moinhos moendo devagar
fina farinha, inúteis mares de pó