João Paulo Cotrim – A minha cabeça é um lugar

ortegaNarrativa, SO8, Suroeste

JOÃO PAULO COTRIM

A minha cabeça é um lugar

E se na vez de dados fossem poliedros? Bastava um para que o jogo acontecesse. A mão vindo atrás no mais lento dos movimentos cinematográficos, como queremos para que pareça que não perdemos detalhe, os olhos abertos a interpretar espanto, a sobrancelha que dança, tudo em palco, tudo em tela, a cor em arrasto que aumenta a intensidade, um sonoro ritmo que, em somando legenda, faz com que a realidade nos seja possível, apreensível, palpável. Possível. A mão atira-se toda no gesto, desfaz-se no poliedro que rola sobre a superfície, um corpo inerte, um corpo agora desperto pelo toque das arestas, movente, erguendo-se e logo correndo. Uma manhã podia bem nascer assim, de arestas desdobrando superfícies que se fazem horizonte. Em lugar nenhum, em momento algum acontece paragem ou tranquilidade. Cada face vibra como ecrã, projectando, reflectindo, vibrando. Nem o negro ausência se deixa sossegar quanto mais o branco contentor. A vida nasceu agora mesmo, não do verbo, mas da imagem composta de cada um dos sentidos, desmultiplicados agora pelas combinações, subtis cruzamentos das avenidas que fazem de cada sólido geométrico uma cidade de possíveis. E impossíveis. Por cada vez que a mão se desfaz atirando o poliedro, o silêncio suspenso do azul desfaz-se em ondas sucessivas de nuvens que o vento dos suspiros afasta para revelar como que pequenos seres vivos que logo ganham forma de companheiros. Logo ali nos indicam a viagem que um piscar de olhos desperta, interpelam-nos com interrogações vibrantes. A mão que toca um rosto, agreste, fugidio. Os fins de tarde onde cada amigo se junta para trocar gestos assim. Chegam e bebem. Chegam e tocam. Riem antes de partir. Saúdam a noite. Param por quase segundos para que a imagem se componha. Ilusão que logo a chuva desfaz. Há além pálpebras que fecham, para melhor ver em si. Portas de igreja que chiam ao abrir arrepiando os santos. Logo esvoaçam desfeitos corvos para não concederem graças. Os santos andam cansados de quotidiano: pequenos almoços, almoços médios, quase jantares, longas mesas festivas. Mortes rotundas ao longe, crimes hediondos ao perto. Vistos de perto. Que devem vestir os crimes, veludo sangue de boi ou chita vaporosa e transparente? Lavo disto as minhas mãos. A cidade cresce para mim e os carros apitam. Faróis e olhos rolam as colinas até às margens oftalmológicas do rio. Os pés que extravasam os estiletes chutam berlindes que os peixes devoram. Engolem os próprios olhos, que só voltamos a ver em museus mercados. É fresquinho, senhora. Gritam os curadores, cheios de pensos logo existo. Os dedos seguram os lápis até que o pastel se desfaça sem que nasça pintura cúbica. O deserto continua deserto mesmo quando não é percorrido. Alguém de rosto desfeito, sem contorno, visão de melhor amigo não eleito, insiste em atirar aos céus as árvores de onde brotam televisões: tamanhos diversos em polegadas e indicadores, comandos de espanto que mandam nos nossos olhos, na nossa surpresa. Esvoaçam palavras e grifos, oiço carmesim ladrar e encolho-me como se ego fosse um porta-chaves carregado de portas. Vieram as gruas do porto consolar-me, desfazendo o quase enigma. As imagens só se inquietam nas horas esdrúxulas. E o dia nosso de cada pão continuará a jogar aos dados. Tão só. Sofro um sono reparador.