Cláudia Clemente – Lost in translation

ortegaNarrativa, SO8, Suroeste

CLÁUDIA CLEMENTE

LOST IN TRANSLATION

O teu guia e tradutor tinha dito algo parecido com «é preciso pagar um preço demasiado elevado» e tu riste-te, claro. Quanto é demasiado elevado para alguém que trabalha em publicidade? E ele, acenando vigorosamente com a cabeça para um lado e para o outro «demasiado, não valer a pena minha senhora, muito tempo, muito, demais, perigoso, não não», as mãos a abanarem ao mesmo tempo que a cabeça, como se fosse necessário corroborar a informação prestada.

Sentiste-te tentada. Eram demasiados os atributos para conseguires resistir. Proibido, com um preço demasiado elevado, perigoso, um líquido feito de uma seiva de árvores sagradas, com milhares de anos, uma promessa de trip como nunca antes, «qual ecstasy qual cocaína qual mescalina qual LSD, aquilo é que é», tinha afiançado Peter quando soube o destino da tua viagem. «Tens mesmo de lá passar, é bastante perto do sítio para onde vais, aluga um carro e dá lá um salto, arranja um guia que te leve lá senão nunca vais encontrar aquele lugar sozinha, ele que te ajude a tentar que te vendam aquilo, Cat, é uma experiência única.»

E agora, depois de uns dias na estância, quando já estavas farta de lugares-comuns de férias — visitas turísticas, festas, DJs, sexo, praia, nativos, cultura local, bebidas e drogas demasiado conhecidas — sabias que estava na altura certa para «aquilo».

O guia aborígene tinha-se embrenhado contigo pelo meio da densa floresta de gigantescas árvores milenares. Ao fim de meia hora de caminhada que te estava a deixar os pés em fogo e a curiosidade ao rubro, chegaram a uma espécie de gruta cavada na rocha, semi-oculta pela vegetação e recoberta por raízes entrançadas. Ele entrou e, não sem uma breve hesitação, acabaste por segui-lo. O ancião que vos recebeu na caverna parecia relutante em vos vender a substância que lhe pediam. «Diz-lhe que dinheiro não será entrave», pediste ao guia. Viste o velho abanar com a cabeça, de semblante grave, e esperaste ansiosamente pela tradução do guia.

«Preço demasiado alto, anos pagar, muitos anos», insistia o homem, «desista, por favor, senhora». Riste-te de novo. Pagar durante anos, que disparate! «Pago tudo a pronto, não acredito em prestações. Diz-lhe que aceito.» Desolado e a contragosto, ele traduziu a tua resposta. O velho sorriu pela primeira vez, mostrando as gengivas descarnadas e abrindo muito a boca, como uma clareira negra no meio da barba tingida, emitiu um grito estridente e prolongado, uma espécie de guincho não humano, que fazia vibrar a língua roxa e a campânula desmedida que lhe ocupava grande parte do palato. Ficaste imóvel, como enfeitiçada, a ouvi-lo. Tão repentinamente como começara, o canto cessou. O homem olhou-te de rosto fechado. Sem se mover da posição em que se encontrava, sentado no chão de pernas cruzadas, estendeu o braço para um esconderijo na rocha. De lá tirou um pequeno frasco azulado e estendeu-to na ponta dos dedos afilados, que pareciam raízes a saírem de uns braços magros e secos como galhos de árvores.

O líquido era amargo, e o seu sabor recordava vagamente o da amêndoa tostada. A última coisa que fixaste, depois de pegares no frasco e beberes o seu conteúdo de um trago, foram os olhos do velho, uns carvões negros a arder, queimando-te com eles, antes do prazer arrebatador, desmedido, fulgurante, que te ergueu no ar e te projectou para universos insuspeitados dentro e fora de ti, onde flutuaste numa explosão contínua de todos os sentidos em simultâneo, um coice avassalador a que se seguiu a queda prolongada no abismo deserto da noite que te invadiu.

Abro os olhos. O par de sapatos pousado ao lado da cama onde me encontro deitada não pode, de forma alguma, ser meu. Levanto-me a medo, sem reconhecer o quarto onde acabo de acordar e dou uns passos ainda desorientada em direcção à porta da casa de banho entreaberta.

E assim de repente, ao olhar para o espelho, é como uma paulada na cabeça — morte do pai doença da mãe asma dos filhos hipoteca da casa seguro do carro PPR impostos prestações contas por pagar colégio horários compras no supermercado — vejo uma velha diante de mim e essa velha sou eu.

A velhice era algo que não tinha posto a hipótese de me acontecer. Como é que isto então sucedeu? Quem é esta mulher com vários quilos a mais que me olha no espelho, vagamente semelhante ao que outrora fui? De quem é este corpo, esta pele, estas rugas, estas mamas descaídas, esta cicatriz na barriga flácida? Estes cabelos com inúmeras raízes brancas a despontar sob o castanho pintado, poderão ser os meus? Quando me transformei em tudo isto?

Sinto uma tensão imensa a oprimir-me a coluna e o peito, uma inquietação, uma responsabilidade como nunca antes experimentara — mas sobre quem, o quê? Estou num estado como de permanente vigília, como se carregasse o peso do mundo sobre os ombros. A quem pertencem as horríveis memórias que me assolaram? O meu pai está de boa saúde, a minha mãe também, creio, já não falo com eles há algum tempo. E aquelas obrigações mesquinhas, comezinhas, que de repente me atacaram, de uma vida vulgar que a todo o custo evitei ter, aquilo a que sempre me furtei com arte e elegância?

Horrorizada, cambaleante, regresso à cama. Sento-me, e vejo pela primeira vez que no lugar ao lado do meu dorme um homem que também não reconheço. Esfrego os olhos, baralhada. Decido que se trata de um pesadelo, um equívoco lamentável, e deito-me de novo, com todo o cuidado para não despertar o desconhecido peludo que ressona tranquilamente. Fecho os olhos e tento voltar a dormir. É então que ele me passa o braço pela cintura, encostando a cara à minha nuca, e murmura: «amo-te, querida. Tive tanta sorte em te ter conhecido.» Não tenho tempo de reagir porque nesse preciso momento entra pela porta entreaberta um rapazinho de uns nove anos de idade — de onde surgiu? — e esgueira-se para dentro da cama antes que eu consiga protestar. Como se isso não bastasse, um outro miúdo com uma idade que não consigo precisar, mas que mal sabe andar, aparece agora, arrastando um urso de peluche, e atira as minúsculas mãozitas na minha direcção. «Mamã, colinho ». Mamã? Antes que consiga protestar já estão todos em cima da cama a disputar o cobertor, o mais velho «papá chega para lá senão não cabemos, tenho o cotovelo do mano num olho ». Sinto o joelho de um deles nas omoplatas, levo um pontapé de outro, e decido que este equívoco dura há tempo demais. Determinada, cerro com força as pálpebras e sinto o cheiro morno daquele corpo mais pequenino e rechonchudo que se encosta a mim e me faz uma festa desajeitada na cara. Ainda ouço «adoro-te, mamã! » mesmo antes de adormecer.

 

O velho continuava sentado na mesma posição em que o recordavas. De pernas traçadas, inclinou-se para ti e pousou-te uma mão surpreendentemente fresca sobre a testa a ferver. Ao seu lado, apreensivo, o guia olhava-te. «Senhora, sente-se bem?»

«O que aconteceu?», perguntaste. Tentaste soerguer-te sobre o cotovelo mas de repente o teu corpo pesava toneladas e era-te impossível movê-lo.

O teu corpo — de novo as tuas mãos pernas coxas braços barriga, tudo como antes, o teu corpo de volta, que alívio esse regresso dos mortos.

Recordavas agora como surgira o pesadelo: depois da maravilhosa poção, o preço a pagar.

Ainda estonteada pelo efeito do líquido, com a cabeça em chamas por dentro, tinhas perguntado: «O que sucedeu? Estou doente? Vou morrer?»

O velho respondera com voz pausada, sem se mover, e o guia tinha traduzido. «Morrer não, pagar com vida sim.»

Aquela forma de falar começava a enervar-te. Tinhas agarrado com força o pulso do guia.

«A que é que ele se refere? Porque não me avisou disto? O que é essa conversa de pagar com vida?

» O homem olhara-te desolado.  «O homem sábio já tinha prevenido, preço alto, pagar com vida, anos de vida, muitos anos.»

«Quantos?»

«Dez anos de vida.»

Pelo menos aquilo que sucedera fazia agora algum sentido, dentro da total irrealidade de toda a situação. Voltava-te tudo à memória com alguma clareza. Havia um poço, sim, era isso, tinham-te mostrado um poço. Recordavas um poço imenso, repleto de pequenas sementes. E o ancião, que te dissera «escolhe duas». Porquê duas?

Sempre odiaras dualidades — o Bem e o Mal, o preto e o branco, o céu e o inferno, o yin e o yang, o princípio e o fim. Que ridículo teres de acabar aprisionada numa escolha bipartida, nesta encruzilhada cruel entre destinos que não desejaras.

«Muitas as opções, duas apenas as possibilidades. Escolher deves.»

Relutante, tinhas mergulhado a mão no poço e retirado de lá duas pequenas sementes castanhas, redondas e macias, do tamanho de uvas.

«Uma só deves engolir, as duas podes provar.»

Sim, lembravas-te ainda de teres mordiscado ao de leve a primeira semente. Depois disso, o pesadelo.

Agora, felizmente de regresso ao lado de cá, embora o lado de cá fosse naquelas circunstâncias uma caverna subterrânea assustadora escavada na rocha e recoberta de raízes que parecia saída do Senhor dos Anéis e a companhia em que te encontravas deixasse algo a desejar — entre um guia que mal sabia falar o teu idioma e um velho com um discurso desconexo que se começava a assemelhar cada vez mais perigosamente a um personagem da Guerra das Estrelas.

Não havia forma de recuar. Mordeste ao de leve a segunda semente.

 

Abro os olhos a medo. De novo na cama, sinto um pé que toca no meu. Olho para o lado esquerdo e vejo um homem nu. Tem à vontade menos quinze anos do que eu e pelo que consigo vislumbrar deve passar bastante tempo no ginásio. Nada no vasto estúdio open-space em que me encontro me é familiar. Paredes brancas, mobília de design, toda a decoração é de bom gosto e parece ter custado uma fortuna. Levanto-me de um salto e corro para o espelho. Um corpo em boa forma, com uns implantes mamários que não reconheço — como é que isto veio aqui parar? — e que desafiam as mais elementares leis da gravidade. A cara é minha, mas não se parece comigo, com aquela que me habituei a considerar a minha cara. A pele é lisa, sem rugas, terá botox? O homem nu sai de baixo do edredão e com um «bom dia» despreocupado dirige-se à casa de banho.

Batem à porta e antes que tenha tempo de responder entra uma jovem bonita e desempoeirada que, pelo discurso, deve ser minha assistente. Cumprimenta-me e passa imediatamente a desfiar uma ladainha enervante que consiste nos meus compromissos para as próximas 48 horas. Almoços de trabalho, jantares, reuniões, desenvolvimento de conceito, promoções na televisão, talk-shows, revisão de anúncios, estreias, inaugurações, brainstormings, blá-blá‑ -blá... ao fim de três minutos daquilo já não a posso ouvir e peço-lhe que pare.

Surpreendida por a ter interrompido olha-me com uma sobrancelha levantada.

«Mais logo, então? », arrisca. «Sim, por favor », acedo.

O Adónis de olhos claros que saiu entretanto do duche infelizmente aparece já vestido. Diz-me até logo com um aceno desapegado e a eficiente rapariga aproveita para lhe relembrar «Johnny, tens casting hoje às quatro na agência, por favor não te esqueças.» Ele concorda com a cabeça, agarra numa maçã que estava na fruteira sobre uma mesa de vidro e sai. Não parece muito conversador, o rapaz.

A minha jovem assistente, em contrapartida, não parece disposta a permanecer em silêncio por mais de um minuto. Aproxima-se de mim assim que ouve Johnny fechar a porta. «Já passou cá o Mike a repor o stock », informa, entreabrindo uma caixa de madrepérola do tamanho de uma lista de páginas amarelas, que pelo que vejo parece estar recheada de um pó branco, ao lado do qual repousa um elegante canudinho de prata. Tornando a fechar a caixa perante a minha indiferença, ela muda de táctica e pega-me na mão, pedindo com voz dengosa «desta vez podia levar‑ -me consigo a Paris, em vez do Johnny, como tinha prometido ». Como não sei o que responder, permaneço calada. Ela volta à carga «sempre quis ir à entrega dos prémios, já no ano passado era para ter ido…» e antes que tenha tempo para reagir, zás!, já ela está colada a mim, a envolver-me a cintura com ambos os braços, e a espetar-me um beijo na boca. Liberto-me a custo do enlace com um «logo vemos », e dirijo-me para território neutro, a casa de banho «agora vou tomar um duche ». Ela, atrevida, lança-me «quer companhia? », mas nem me volto na sua direcção, é uma armadilha em que não vou cair, limito-me a acenar uma negativa com a mão estendida e fecho-lhe a porta na cara.

Observo o mármore dos lambris e do chão, as louças de marca. Sobre a prateleira que ladeia o lavatório encontro diversos sais perfumados. Tapo o ralo e começo a encher a banheira. Um bom banho de imersão opera milagres. Quando a água me parece ter atingido um nível aceitável, entro lá dentro e fecho os olhos. Tenho a cabeça pesada e confusa, as ideias parecem correr à velocidade da luz, entrechocando-se, faiscantes. Deixo-me escorregar, ficando por uns instantes totalmente submersa. Sinto o cabelo a ondular, lentamente, e deixo que os meus braços moles se movam ao mesmo ritmo ao longo do corpo. Abro os olhos debaixo de água e começo a soltar o ar devagar, vendo como as bolhinhas minúsculas se desprendem da minha boca e sobem, rápidas em direcção à superfície, à vida. Primeiro muitas, inúmeras, em grupos, em seguida cada vez menos, uma ou outra solitária, isolada, e depois, por fim, mais nenhuma.

Emergiste como um náufrago do fundo do oceano, no momento em que o último resquício de oxigénio abandonava os teus pulmões. Inspiraste longamente, sorvendo o ar com angústia e sofreguidão. Tossiste, olhaste em redor. Estavas na caverna, ainda na caverna, ou de novo lá, com os mesmos dois homens que te observavam diante de ti.

Tinhas o punho cerrado, quase com desespero. Sabias demasiado bem o que continha. A tua sentença, sob a forma de uma bolinha redonda de casca macia e aspecto inocente.

«O tempo acabou. Escolher deves», disse o ancião.

Abriste os dedos devagar e olhaste para as duas sementes que repousavam na palma da tua mão.