Bernardo Pinto de Almeida

ortegaPoesía, SO8, Suroeste

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BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

O estranho de estar vivo

O estranho de estar vivo
é estar‑se inundado de palavras,
não se acabar realmente com nada,
ter uma febre intensa
e uma estrela
muito alta.

O estranho de estar vivo é
caminhar de noite, insone, a nomear as coisas,
é nem sempre saber, diante da planta
o que é uma planta, diante da pedra
o que é uma pedra, diante de um homem
o que é um homem, ou o que possa ser.

O estranho de estar vivo é ter
palavras entre nós e as coisas
sem poder nomear. O estado mais puro
do estranho de estar vivo é
o tempo indiferenciado
do sonhar acordado.

Na manhã em que visitei Philippe Soupault

Na manhã em que visitei Philippe Soupault
o dia estava incerto: ora chovia
miúdo, ora o sol aparecia
por detrás das nuvens
sobre o Sena. Caminhei
longamente pelas ruas,
atravessei a ponte Mirabeau,
lembrando Apollinaire, e
aquele passeio breve por Paris
valeu‑me um curso, ao menos,
de literatura francesa.

A impressão que me fez
a sua figura grave,
distanciada,
a cabeleira branca
a coroar‑lhe
a estatura,
as mãos grandes
e o rosto, seco, duro,
escrito pelas rugas,
ficaram gravadas
em mim
durante muitos anos.

Mais do que aquilo que disse,
a sua voz,
mais do que o que contou,
o seu olhar pousado sobre as coisas,
a calma do pequeno hotel
em que habitava,
os ladrilhos no chão
do hall, o tecido puído
dos sofás,
a breve saudação
à despedida.

O Deus da minha infância

O Deus da minha infância
era verde,
verde como um fruto
amargo, como um campo extenso
alargando‑se para lá do horizonte.
Corria por montanhas e rios,
descia suave pelas colinas,
detinha‑se nas ervas,
nos riachos, anunciava
nas árvores jovens
o próximo rebentar da Primavera.

O Deus da minha infância
era louro,
como trigo sereno, ondulante,
cavava fundo a terra
adormecida, e as cigarras
cantavam nela ao fim da tarde.
Explodia vivamente
em cada sol, nascia pela manhã
e velava de noite o meu sono,
a solidão tranquila
da criança, o rosto
moldado na almofada.

O Deus da minha infância
era azul,
estava em todo o céu como o azul,
era as gotas de orvalho
sobre as folhas,
o ar muito fino, e respirável,
que a cada hora atravessava a folhagem,
os ramos muito altos,
e os enaltecia de verde.

O Deus da minha infância
era breve,
colhia‑se na tarde
ao calor, sob as árvores
generosas como frutos,
e apertava‑se frio contra os dentes
imaturos,
tornando‑os rijos e brancos,
luminosos,
passando em cada gesto
como um sinal intenso.

O Deus da minha infância,
ao descer da voz
ouvida ao longe,
era um cavalo de prata
junto à minha janela,
um olhar fugaz que se voltava
para a sombra,
e que julgava ver nela
o mistério do mundo.
Toda a violência das tardes,
a ordem plasmada no cosmos
muito amplo,
acima de todos,
de cada um de nós.

O Deus da minha infância
era livre,
brincava
com os gatos que saltavam dos telhados,
com os cães que adormeciam ao sol,
com as crianças
que rodopiavam em rodas,
em torno do pião
que rodava.

O Deus da minha infância
era pobre,
escutava as vozes das lareiras,
comia a broa ázima, pousava
sobre a mesa de castanho velho
e detinha‑se nas linhas
fundas da madeira,
nos seus nós escurecidos.
Assomava às janelas
de vidro barato
coalhadas da humidade.
descia pela garrafa de azeite espesso,
misturava‑se com o vapor acre do vinho,
crepitava nas brasas
entre castanhas e fumo,
afundava‑se nas rugas dos velhos
de mãos encarquilhadas
pelo frio, e pela usura.

O Deus da minha infância,
se acaso me visita,
fala‑me das vezes temerárias
em que me aventurava nas águas agitadas
de um rio,
em que afundava o corpo
na terra ainda quente. E
abraçando‑me a Ele
leva‑me de volta ali,
a esse lugar remoto de onde nunca parti,
a essa funda origem
onde O conheci.

A estranha

A estranha música
que sai da aparelhagem,
o misterioso mecanismo
do desejo, do sexo,
ah, como tudo isso
nos inquieta, nos conforta.

Um café rápido, um comboio
que parte, a feroz
vontade de lançar
riscos no ar,
muito para além
de nós.

Passeio agora as mãos
nas tuas coxas, é ainda
manhã, um coração
violento, revolta aparição, sorri
para mim — inesperada visão
no entrepernas.

Não sei que mistério
se oculta, se dissolve,
para além da turva curva
dos joelhos, que luz fugaz
é esta, que desce devagar
pelas tuas coxas.

Que harmonia, essa rima
irregular
de ombros e nádegas.
Apareces‑me cisne,
ligeiramente dobrada
sobre ti — multiplicada.

Forma da boca
húmida que pulsa
e se contrai, que me puxa
para si e que me suga
ao incêndio da pele
por que respiras.

Abates sobre mim, de noite,
de cabelos me cobres,
com as mãos me torturas
a fome irreparável
do acto — magnífico ritual. Pairas:
vento, que uiva e devasta.

Os mortos

Murmura‑se pela casa,
as crianças são afastadas para quartos
onde brincam, e lhes pedem silêncio,
graves criadas murmuram, restolham aventais,
rangem as tábuas dos soalhos. Os mortos
são assim, a tudo impõem a sua regra de espanto,
a morte é uma sucção de tudo à sua volta,
como se a todos apontasse um dedo acusador.

Da sala para o quarto, do quarto para a cozinha
os passos avançam, como se envergonhados. Morreu?
Ainda está vivo? Ninguém sabe ao certo,
quando as agulhas do relógio designam, pontiagudas,
horas que arrefecem nos cristais
esquecidos sobre a toalha.

A mesa estava posta, os convidados próximos,
vieram irmãos e familiares de longe
para saudar pela última vez aquele que parte,
não têm que dizer‑se nesse encontro perplexo,
que o tempo não ajustou, senão por cerimónia,
e olham‑se uns aos outros numa vertigem cega
de se sentirem apoiados num qualquer consentimento,
que os ligue a si, aos outros, ao seu tempo,
porque aquele que morre já devagar
os suga para dentro de outro tempo.

Assim a morte vai enchendo as nossas vidas,
nem melhores nem piores, cada vez mais vazias,
vazias de si mesmas, vazias de sentidos
que nos outros prolonguem o que já antes fomos:
numa fotografia, entre laços, a infância,
nesta outra, a correr, e uma bola fugindo,
em outra ainda um triciclo, depois no acampamento,
uma carta de curso, entre outros no quartel.

Inexorável, o tempo apaga‑nos esses rostos
onde o espanto se fixava, onde tudo era branco
e nada se escrevia, senão o gesto atento,
uma delicadeza para com um outro olhar:
a mãe que se afastava no corredor, a namorada frágil,
ou num grupo de amigos, junto a um carro polido,
um cigarro pendendo negligente dos lábios,
um pulôver que ficou a preto‑e‑branco e
ela, a sorrir ainda, a prima que se suicidou
antes do tempo.

Agora o morto está deitado sobre a cama,
dir‑se‑ia que respira, dir‑se‑ia a sorrir,
mas no rictus imóvel ele já não está ali,
partiu para qualquer lado, deixa‑nos de sobreaviso,
tão vagos de nós mesmos como quartos devolutos
numa pensão de província que já ninguém frequenta.

Entre os vestidos pretos há um rosto que soluça,
em que o silêncio faz de fogo cada lágrima,
sob uma madeixa branca uma saudade traz
um qualquer suplemento a todo este vazio:
um filho que aproxima o corpo do pai ido,
um beijo que se troca no luto partilhado,
o abraço que ressoa do casaco apertado,
da gravata com o mofo do fundo de um armário.

A todos os convocou o morto neste dia
em que a todos dispensa silêncio por igual,
pois todos se lhe tornam familiares na morte,
mesmo o que passou por acaso para entregar uma carta.

E uma porta se abre, uma janela que passa
deixa entrever um breve clarão de azul. Um sol
cai a pique na hora do meio‑dia
e faz destas horas graves um tempo quase esférico,
de tão redondo,
tão vazio,
tão, para sempre, inapreensível.

O mundo

O mundo não tem qualquer importância.
A criança talvez, o seu estar no caminho
do cosmos, sem o saber ainda. O resto,
amor, raiva, mesmo a loucura
burguesa, tudo no trânsito,
tudo isso pertence à não importância.

Silencioso, muito acima de nós,
o céu espreita o movimento vago
de nós todos e, ora azul,
ora negro, tanto promete a luz,
como, logo depois,
a funda opacidade.

Os gestos que lentamente conduzem à boca
o pão, aos cabelos a mão distraída
que os percorre ou, de corpo
a corpo, trocam carícias, talvez esses
saibam cegamente o que os move.
Talvez esses nos salvem.

Segundo poema de Setembro

Tens quase um poema escrito
numa página
que se abre na tua vida. Versos
sem importância que te fizeram ágil
a sentir o que o mundo desde sempre te deu.

Tens quase um poema escrito
no espelho do teu sangue,
e há uma criança lenta que te atravessa a tarde.
Mas a cegueira impede que vejas de entre as sombras
o que uma luz demasiada ali escreveu para ti