Gonzalvo M. Tavares

ortegaSeparata, SO9, Suroeste

GONÇALO M. TAVARES

Para o artista Luis Costillo, uma vénia

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Fotografía: Vicente Novillo

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Vejo maravilhado a obra de Luis Costillo. O desenho como uma forma de escrita sem letras, a escrita como uma forma de desenho que usa o alfabeto e um certo entendimento racional.

O desenho, pois, como modo de o raciocínio dizer a si próprio: schiu! e o humano ficar só uma substância que vê. E isso é tanta coisa.

por vezes basta ver, não calcules, não avances, não retrocedas

E o desenho ainda como forma de o olho dizer a si próprio: não vejas, pensa! Porque por vezes não se pode usar a visão; é necessário uma cegueira particular para as formas, que avance para o mundo como um cego com infinitas letras na cabeça. Um cego que seja ainda cinema portátil e produza milhares de imagens na cabeça para compensar o nada esvaziado que está à sua frente; cem mil imagens por segundo na cabeça, eis a medida mínima de um artista como Luis Costillo. Menos que isso, hupf: que as almas portadoras dessa lentidão se dediquem aos actos contabilísticos e funcionais.

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Seguir linhas e cores como se seguem frases e parágrafos, palavras.

Seguir frases e parágrafos e palavras como se seguem linhas e cores.

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Saber que Luis Costillo admira a minha obra, comove-me; saber que cita a minha Enciclopédia no passo em que se fala de substituir a escavação pelo voo, dá-me mais energia para tratar de retomar os treinos da levitação acelerada e lúcida que por vezes tenho de interromper porque a vida me exige o preenchimento de um impresso longo, repetido, uma filha-da-puta-de-perda-de-tempo.

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Luis Costillo fazendo, da doença, material para obras de arte, pinturas e desenhos do interior do organismo; a arte a resistir a essa barbárie celular, essa invasão de quem não fala a nossa língua mas que a medicina moderna capta e decifra.

Desenhos e pinturas que transformam diagnósticos em cores e ironia: uma forma de dizer ao que é bárbaro que jamais o humano abdica da sua posição vertical, essa forma de assumir que ser-bípede-que-não-se-deixa- -vencer é o estágio fundamental para o voo. É preciso escavar muito para aprender a guiar um corpo inteiro sem chão debaixo dos pés. Desenhos e pinturas como lições de voo: os livros de artista de Luis Costillo se forem lançados ao ar não vão regressar à terra, menino, não vão regressar à terra