Luiz Pires [Dos Reys / Donis de Frol] Guilhade

ortegaPoesía, SO9, Suroeste

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LUIZ PIRES [DOS REYS/ DONIS DE FROL] GUILHADE

De volta à torre, groto sem leme...*
Donis de Frol Guilhade

Do deserto do mar elevam-se as costas do vento.
A esperança leva ao navego, sua espera ao marinheiro;
da distância batem antigas as águas. Nos feros lábios da fraga
fita-as inágil o mar — velada, resiste a névoa à demanda.

(Que bem a hajas, ó Cercana,
pajem dos Enigm’Áticos, antiga!
Diz-me onde o infante marejo
que ao Amor sem ilha me leve.)

Estão longe as ondas no sussurro d’olhá-las.
Não de arder vê-las, não de as ser, não — sim
de ao promontório não virem. De a errância
soprar tanto, há no vento peregrinos velames.

Dos líquidos túmulos passos-monges tragam os ecos,
rumando à bolina da alma seus romeiros naufrágeis.
Da fortaleza das pedras-forja que foram,
pergunta então aos morros, vago, um vulto:

Viu quem, o fogo defuncto nas águas?
Quem aqui, em pégaso alor, o sentiu
e sua sinestra hypnáusea, cavalgando,
viram, acorrendo, as ondinas?

Responde Alguém: Viu Calífrago, lidador
da Saudade, dos Maios nauta p’lo antigo
mar, de Marão dos longes no peito,
quase sem ar, que com arte muita.

Ouvem-se os pássaros de voz nenhuma
em seu eco ao longe a chamar.
Ferino de seus olhos em sonho gládio,
bebe Amor o mar impossível das mágoas,

pálido tanto do fundo ário, celta e atlante
que à terra sorve a estirpe e a memória;
há na guerra um viriacto que a si moribunda
emboscada guelra d’espectros nas feéricas artes.

Onde os cardumes das Sirenas regressam as escamas
deslizam incógnitas, gémeas rainhas, nuas
p’los peixes d’algum ichthysico porvir; e do ventre
do mar, salina de medo, eleva-se a fala lâmia.

No olhar dos Divinos, liquefeito líquen da alma,
guerreiros aquáteis olvidam centelhas antigas —
que mais o destino desfeito inveja tanto
o que nos deuses a irmandade muito cala.

Dos fátuos céus precipitam-se os fogos em divina
magna opereta, a que se abram as veredas do mar.
No vento em cristal a costa rasga as vagas
por que ela em escarpa solidão se esgrima:

desbrava-se em verbos e cicios o suão guerreiro.
E do desterro no antípoda de si nasce então um lugar,
a Ilha grande, a Nenhura:
a que, do mar maravilha,
mais ilha é quão mais Amor lá o haja!...

Obscuro um grito oceano afunda-se no lago d’alma inóspito.
São do ‘Spírito as Sete Trevas das Quarto Luas inúmeras.
Fitando o alto e o profundo, mantém-se em seu lugar,
o Atro Mar abismado, maralto em que nos saúda e afoga.

O que em si o verbo de mais seu embusca, no divino o fogo
demanda o que lhe é do medo judas perplexo e paradoxo.
Na dança, em vítrea areia clamam os grãos-viventes:
o que o deserto semeia, sagra na semeadura pyrâmides.

Sorrindo, já as Saudosas se apartam da torre antiga
p’ra lá da memória dos olhos nítidos de aí voltarem,
senão quando as vejam as Parcas, ao groto chegadas
donde partiram: é leme para sempre o sem já mais.

* Do inédito Os lírios de Liliput e o rio dos sorrisos [vinte & 2 arcanos de Swift], 2011, aqui apresentado em texto revisto.

***

Arco de revolta inteira: outeiro-rey do iniciado de si
Donis de Frol Guilhade

Em crivo mágico, de grifo e de crysol
um ano perpassa-te e mais um dia d’Outro:
deste, empós (setenário dos Longes que te filhou),
no arquitempo iniciadoiras-te na inteira volta.
Em tintura o astro austia-te reyno solar
no áureo úrano da alma: a vida pouca dá-se-te
então, na prova e na procela, perdida —
o que a morte a raros só concede.


De plumas completam-se, plenas flamas,
as estações do arquiarco, nas voltas plúmbeas
em dócil ferradura: é este dos Arcaicos
o tirocínio consabido e o destro galope.
Do tempo galgo nessa lupa, a têmpera
de cada lua macera-te as têmporas do peito:
um dia mais e mais um ano – que os anéis
do nada se aí perfazem de fado e de saudade.


Os anais, atómo-esferas do tempo, os tecem
(jogam-se os dedos nos dados) — que em tal jugo
se não tocam. Lá longe, do sino d’aldeia rapta-se
do campanário o repique em que o linho do som
do lenho se infixa no volátil do silêncio. Na linha vã,
mas diligente, o tempo de si mesmo compactua
com o possível e, qual em mênstruo-mestre, brota
da imemória, heraclítico, o rio sem margens e sem pactos.


Dos meses da carnação e do sangue,
do fogo que te crisola e alfim todo doira
afaga-se valoroso de tal estro o tão belo
terror da mor peleja — nisso à terra se devolve
o que é do céu, do seio e do nero astro:
que de si, no outeiro-rey iniciado
na demanda, perene lida est’ condestabre
da alma com o arco da volta que o inteira.

Do inédito Os lírios de Liliput e o rio dos sorrisos [vinte & 2 arcanos de Swift], 2011, aqui apresentado em texto revisto.

***

LILITHEA
OU AS SEIS NUTES DA NOUTE NOVÍSSIMA E DIVERSA
Donis de Frol Guilhade * Luiz Pires dos Reys

{ NUT À HORA ZERO DA NOUTE }
Sacerdotesa em m.I.m maior

Uuuuuuuuuuuuhhhh ....rro!! Coração ao cub’alto!!
Do oorto hirto dos seios o sangue-aorta dos beijos
desalma-me toda. Em prece. Sem pressas.
E eu cruo-me. E eu creio-me. E crio-me.
E, nua e sem primavera nas ancas,
entrecruzilho-me de sagrações voando
em pontas pelo avesso devasso de ser […].

Lacro-me no teu peito e oferendo-me
pelo reverso: in-tacto. Inestancam-se-me
revolta e dolor da âncora florida
e a quilha do phalo (céu entrante em mim
fulgindo-me diábola) adaga-me fundo
até ao adro da terra, rés-à-pele da entranha
intocável. E fico sem phala. Em urro

na retorta do avanço, se falo sou sem mola
na ponta chã, carmesim do Não. E quero.
Na vertical, repouso do dom e holo
causto-me em fluxo e repuxo até o arder
do mênstruo: para o lacustre perfil da clave
de Ut Eros. Cunea Musica é ritO o AL
isento [parafernália, aqui, não há]: e ofereço-me

a tudo! Toda! Sou sagrada: a Mais.
Sou Hatup, a abso luth’A, vivace ataúde,
e toco de mim o fleme alaúde. Em tudo.
Toda. Uyrgem intocada: sou a mais
Deva’ssa, de taam pura, de mim taam
puramente impura i dada. E o coração
vem abaixo! Sorvo-o e predo-te nele.

E a carne — vianda em chamas,
de tão chamada — escarlata-se rasgada,
escancarando o corpo em corola, qual prado
lyrico de fenixtremas brasas: orto calcinado
dos mortOs. É a pyrica Ph’Ode [er]mystérica.
E tudo [me] é!! E tudo é sagrado.
E tudo é comida. De midas. De merda. Estrume
ácido da via. Tudo é comido, comigo, comEgo.
E, Daimónia, excelo no dEUs-excre
ment’i cio. […] amoníaco das minas
da Grande & SantaMorte: d’haver o O
e o TransAghiOs. E de ser ele H ossa n’A:
A do grão-mystério de si tão puro,
que nem pestilência. Há-o! Ah!...

Este texto constitui a parte segunda do inédito A Hermafrodeus – fragmentos de vma scriptura blasphema, de 2016, que aqui se apresenta em texto revisto.

***

{NUT À SEGUNDA HORA DA NOUTE }
Mudra da Rudra Gesta

1. O rudo manto negro de Durga
rendilho dos filamentos que o cobre do
tempo entretece. Cernudo-me.

2. Cubro-me do semtempo.

3. Espirro-me. De fito. Feto-me

4. de sina e de tão cega: de tanto
olharem-me. Procuras-me-te. Desde que
hás, que hás-te e que és haste.

5. Tua pele é da cor do meu t’acto
venoso.

6. Tua mão é mudra do meu perigoso
g’estro.

7. Tua vulva-intelecta, Lilith, não é na
testa, não é no útero: é no peito-abysmo
[pre]dador d’a-Mors, & percorre-se
láctea de sémen na via que nos designa
& desenha: desde o omphalos gárgula
dos mundos à garganta dos nós não
cegos.

8. Nós, os mudos sem medo.

9. Teu coração é chav& de mim.

10. Líquida, no mar insó l[e]ito da
eternidade negra.

11. Depend’u[r]rada por dentro do
teu pescoço, assentas no ombro do meu
peito que dorme no teu braço dextro: que
desPietá! que ironia de insublime!

12. D’Esse que deixaste comigo.

13. Até que viesses...

14. Para sempre.

15. Como nunca.

16. Para jamais.

17. AhMudra deMerda da Satana
MadremerdRosa NegraRoseiraSatana
d’Omais SangradoMOrto : o d’Eus do
AmorMaisPã&Tosão[mais]d’ouro de
quantos ha:já O dEus Pã.nico ei-l’O
que mete o dó-em-mi&faz-sol, si-mi ...
fá-dó, fo-dá-em-si, mim lá-à-ré-de-dó-de
tudo: si mi.
Se mim. Semi.
Sem mim
Om
Phalo
s sol
ah
π

***

{ NUT À HORA TERCEYRA DA NOUTE }
Gnomicon de Arbadacarba

Em despe-d’aço de mim,
Aton ata-me à cúspide da mais íntima pyr
âmide, lampadário âmago e torre
genesíaca de meu ser acerado.
Ávida estou de ver.me[s
do] Homem Ver.De o phrag
mento dependuram-me de um fio de cobre –
Abracadabrem-me
d’eu não me ter já entr’as ancas (sou árvore mud’
hábil de seus frutos, todos de pétalas floridos) – & do Um
bigo dond’Ele me traz à Raiz do Fuso: O que gira
sobre Si em toda a parte é de cada outra.
Do dom ao quase
de functo, as pernas em calci
nado branco em si ciam-se-me como o finares-me toda
cúneaforme de ode em flor.
Nem tu me sentes nem eu te vejo. Pelo
inTacto irreconheSomo-nos. Pelo acto
vórtico do ver com os pés te sinto as mãos
da omniausência: tu com a parte inteira
de mim, eu com o sobrevivo todo
de AbraXas sem semi[m]. Tocam-me
os pés o negro da luz que esguicha.
Rodeia-t& a sombra e luze
de ti o fundo cónico em que te beijo
o infindo. Abraxa-te como hÁs-de um dia
ser naipe: abraço-hás-de-me ua noite
ser nauta secreta da secreção:
noute de Nut. D’ourada. Um dia
a turquês no chão as chamas
há-de servi:Raa p’ra ligar&não: des
ligar é a liga áurea. Um
dia, seremos O
infragmentári’Os ...
El‘ohim’mortos. De tão
viv’Os : O’Um.
Om. Amen.
Aum

***

{ NUT À QUARTA HORA DA NOUTE }
Octólogo de BaphoMater

0. Esboça-te a penas leves nas infinitas asas do exílio de
tudo. Consola-te no terror de haver deus e sere-lo tu.
Por graça e de graça. Não tem graça. Pode ter, e bela, é
desgraça.

1. A pele te seja véu, mas que em ti se veja que o é.
Compreende que a carne viva é uma prenda, a prazo, da
morte. Compreende que não tens prazo. Compreende
que o tempo és tu, esquecido que o não há.

2. Que ninguém te veja o olhar: não o tenhas. Sê-o.

3. Vê tudo o que ninguém, ainda que queira, supõe
sequer que haja.

4. Desaparece, ao olharem-te os seres e as coisas; é a
tua invisibilidade para tudo e todos a garantia do veres
o verdadeiro.

5. Sê o puro brilhar da luz negra, e o reverso dela,
irmã das sombras, que a d’nunciam e patenteiam. Como
um astro em hausto, como uma estela em uma estrela,
como implosão explosiva da cadeia dos mundos e dos
reynos.

6. Aos pés, tem sempre os despojos do que há-de
comer-te a partir de entre: do antro que és jorra o estro
de que te fazes manifesto e maninfestação.

7. Existe qual estilita na coluna das costas: que ninguém
te veja jamais, que feito do nunca seja o teu para sempre.
Só assim serás tu mesmo a coluna, tu mesmo o infinito
em volta, tu mesmo tu mesmo.

8. Vê com os olhos da morte; vive como ninguém.

0. O Octo Logos... é o zero ao espelho.

***

{NUT À HORA QUYNTA DA NOUTE }
Tao dos géMeios, tais Tão exceles oráculos inúteis: E Nut eis!

. Estamos perto no orto do sem pré, do sem pé, do
sempre é.
. Por isso, quase. Por isso, nunca. Nunca nos vimos.
. Porque quando, porque nos: fitamos, porque nos não:
olhamos: fundamonos, fundimonos.
. Isso. Nisso. PorissO. Podemos ter-nos em-contra-do:
nunca seria – seria em contr hermo-nos no Não.
. Se um repousa na asa do chão, o outro nada no céu
das águ[i]as.
. Um& Um[esmo] olhamos oO[utro] Um de Sem[pre].
. Apenas nos não vemos, o que é só não ver o que se vê
só: Só o Só vê e se vê sol e insólito.
. O Mas nisso é uma linha In sólita que aí nos pressente.
. É o sentir o Há que não é: o Sentido que nos A linha
com fere, a ferida que o há jamais sara. Haverá um que
não profetizamos. E a Sara que nos houve ainda não
gerou.
. Ta[r]o[t ] é A chave de Tārā.. Ararat. Sator i Rotas.
. Na rota de Tara somos os tārādos divinos: nautas
d’Ararat, noés d’arché.

***

{ NUT À HORA SEXTA DA NOUTE }
A que ama:zona celeste d’entranhas...

... sou [de] bífida pele {maldita quase no pigmento maleável}, como o corpo couraçado de um escaravelho sagrado, feita para perdurar, minha pele rasteja& percorre os infrag-meandros.

Ali encontro o Adverso:meu mais temível / & o mais amado. Ali morro para qualquer limite, ali combato toda a límite acção, ali renasço iliMim te dada para ser ilimitotalmente. Ouço-me o eco:

«O meu rosto ctónico é mulher, ama|zona que cavalga nua a selva qliphótica / valKyrie que busca o combate das semiDeias. 
«Os Gigantes dos confins, filhos dos seres do céu do princípio & das Lílithes 
da terra intacta, hão-de exterminar os pequenos homens do meio, filhos do microNenhures.
«Eles – que não há meio de serem, e só sabem o cinismo odioso – não têm fim nem lugar para serem, de dignos serem o terem nome.
Não são deuses nem demónios, são abominação anã. E existem para maldição de tudo.
«Sou bela, astuta& ágil, serpe que se sabe. O mais perto que há de tudo é o longe. Equi-diz ‘stância.
«Sou livre como águia, e tenho a pique o voo interminado.
«Sou mãe da raça do homem perfeito, o desumano, o inImigo do Homem. Sou deusa altiva & besta [almanimal de sempre nobreza] sem lei, de lei sem código: para danação da criatura vil, raça de hipocrisiários que sobre si mesmos chamam o estigma absoluto de conseguirem ser nada: o mais perfeito, o mais perfeitamente infecto nada!
«Em mim, ser é ser livre até de ter de ser e de ser livre, segundo a natureza
mais bela: a da Terra, a das cavidades da terra & a das moradas entranha do céu. Mutante intérmina, alquimi[nh]
a perfeita: de a si mesmo ser fazer o que quer de si fazer-se[r].»


A que ama:zona


a de:mónia
celeste das sagradas entranhas,
a do terror que decepa, amante, a vulva
que trucida o que dá à luz
das trevas
daqui.
.
L
Li
Lib
Liber
Liberd
LiberdadE
Drebis
Rebis
Ebis
Bis
IS
S
: