Fernando Echeverría

ortegaPoesía, SO9, Suroeste

FERNADO ECHEVERRÍA

O MUNDO REZA-NOS DENTRO

o seu capítulo de ordem.
Intriga-se e entrega em tempo
o artifício que move
o mistério a pensamento.
E pensar a horizonte.
Depois do horizonte, vermos
reza ainda. Reza assombro
em clave de pensamento
e de júbilo. De modo
a termos o mundo afeito
a predispor-se. A entrar todo
por um quase sacramento.
Por sua ordem de fogo.


O QUE ENTRA EM LÍNGUA TOMA AÍ RECINTO.

Acomoda-se à forma. Ou arredonda
anfractuasiades, vento limpo,
tocado intimamente pela força
sapiencial, que sofre o modo de irmos
apurando horizontes, terra nova.
E lugares abertos, sucessivos,
por onde a idade entrega a luz. Dá conta
do trabalho que foi, lento, subindo
até subida aparecer aurora
a entrar em língua. Agora língua em risco.
Onde o silêncio é que divulga a obra.


O QUE EXCEDE ESPERA NOME

adequado a esse excesso.
Não mensura. Desenvolve
ìmpeto de pensamento
a alargar-se do fenómeno
para o infinito dentro.
Um dentro que se comove
sem qualquer espaço ou tempo.

Depois comove-se o exílio
ainda longe da língua.
Resiste o desabrigo
que também a si se exila.

Mas, agora, atenta ao modo
infinito da pobreza
que fica expondo-se ao fogo
faminto da inteligência.
E, entre estes opostos pontos
de infinitude, o que vinga
é o recurso ao paradoxo,
de que resulta uma língua
a exceder-se. E ao fenómeno
o verbo se vivifica.


A FÉ PERCEPTIVA VIVE

quando se apresenta o mundo
resplandecente. Que o estudo
vai sendo luz, se ao abrir-se
dá conta dum dentro oculto
que se abre também, a fim de
recolher seu peso e lustro.
A fé perceptiva imprime
um modo de advir augusto

onde o tempo colhe a brisa
arrepiando-lhe o tronco
mediador de resina
e a derreter-lhe o sono.
E a tudo isto a língua
empresta lugar de encontro

mas também de movimento
e ainda de um espaço
a subir ao seu silêncio,
sempre mais de escuta e alto.


O PENSAMENTO PENSOU-SE

até ao fundo de si.
Em si aberto à noite
núbil. E talvez feliz
mas num ponto turvo, porque
isento de algum confim.

Pensar ouviu-se a pensar-se.
Nada, nem ninguém, ali
a não ser a luz da análise
iluminando-se a si.

E à altura fria da noite
e da música. Do atril
de partituras translúcidas.
Analíticas. E, enfim,
fazendo das várias uma
cumulação, concluiu

torrenciar por dentro a fonte
da leitura — esse país
arrefecido da noiite,
cujo esquecimento diz
quanto tudo muda. E é móvel
a escuta da noite em si.