Catarina Santiago Costa

ortegaPoesía, SO9, Suroeste

CATARINA SANTIAGO COSTA

A MULHER ANTERIORMENTE CONHECIDA COMO CATARINA

Por ora, sou mulher.
Ainda não esgotei esse filão e gosto
de ser mulher.
Mas um dia serei homem
arco do pé erguido, sólido
pernas de bambu
ossos das ancas e clavículas salientes
entradas grisalhas
olhos fixos em sabe-se-lá-o-quê
com roupa de bom corte
lisa, desirmanada, muito usada
camisa branca aberta acima do esterno
pouco abaixo, o nó largo e lasso
da gravata preta com quatro finas riscas brancas entrecruzadas
outra gravata presa sob a gola do blazer
acabado de sair de uma festa oriental,
plateia e palco da decadência ocidental.

Caminharei para a casa muda
onde não habitará a filha d
a mulher anteriormente conhecida como Catarina
e que, a ser alguma coisa (será?),
gosto de ser.
Caminharei com os meus pés agora de mulher
dentro dos de um homem
dentro de uns oxford imaculados até à sola.
E nunca terei sido homem sendo homem
e não serei mulher e sou mulher
e esta não será uma questão política
porque só minha
e será só minha
porque foi política.